quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sho, um ator pornô gay japonês.

Ele tem 25 anos, 1,80 de altura e pesa 66 quilos, com um baita jeito de metido. É magro, não tem o físico escultural. Para os padrões japoneses, é normal. Mas por isso mesmo nunca diria que é um ator pornô. No Brasil, se você vê uma revista Playboy ou G Magazine, a modelo é uma gostozona, ou o modelo tem um corpo sarado. Depois de mais de cinco anos vivendo no Japão, acabei assimilando o padrão de beleza de mulher e homem.


Enquanto a indústria cinematográfica japonesa cresce assustadoramente (nos últimos dois anos, os filmes japoneses têm liderado a lista dos filmes mais), o mesmo não se pode dizer da qualidade da indústria pornô. Aqui ainda é muito primário, com produção fundo de quintal, filmado em locações pobres. E são poucos os que são atores profissionais, por isso mesmo, dentro da comunidade gls, são cons
iderados celebridades.


A Koat West é um dos poucos grupos que conseguiu se solidificar a ponto de criar um selo e suas variantes (Coat West, Kurotatsu, Coat) vendendo vários dvds pornôs, com lojas espalhadas em grandes cidades do Japão, como Tokyo, Osaka, Yokohama. Embora seja gls, mesmo pra esse grupo, são dvds segmentados para os vários tipos de público gay: os estudantes, os que gostam de um sexo mais hard, aqueles que contratam os héteros (ou supostos héteros) para fazerem cenas gays, sexo hétero, e até mesmo filmes com história que tenha começo, meio e fim, um enredo, uma trilha son
ora.


Sho (esse é o nome artístico que adotou) é um ator-pornô, junto com mais dois: Nagi e Hiraku, são considerados o trio de ouro da produtora. Ele disse que faz uns quatro anos que vem fazendo filmes e embora não ganhe ¨muito¨, dá para sobreviver. O custo de vida em Osaka é um dos mais caros do mundo, e, embora seja uma das estrelas da produtora, o padrão de vida dele aumentou e os gastos também.


No começo não pensava em se fixar no serviço, era mais pra pagar seus estudos e também tinha dívidas. Mas depois do quarto vídeo, vários acontecimentos mudaram o seu jeito de ser e pensar. Ele começou uma trilogia intitulada Elos Act (Edge Life of Story. O primeiro filme era Elos Act, com o subtítulo The Lust Chain. Chain aqui no Japão significa, funcionário registrado de uma firma, empresa. Foi um dos primeiros vídeos que fez que tinha uma história, além das cenas de sexo com penetração. Ele fazia o papel de um detetive que investigava a traição de um casal gay. Era o vilão.


Ao mesmo tempo, na sua vida real ele estava no processo de auto-conhecimento, porque até então, ele se declarava um hétero fazendo um serviço para sobrevivência. No ambiente familiar estava cada vez mais pesado, o pai chamando de vagabundo, a mãe achando que ele estava metido com drogas. Queriam que arrumasse um serviço decente, e retomasse os estudos, pois tinha parado a faculdade.

Porem em uma balada em Osaka, conheceu um estrangeiro. E no meio da pista, esse estrangeiro começou a paquerá-lo. Foram para a cama. Mas depois daquele dia, ficou fascinado pelo estrangeiro, embora não perguntasse nada da vida dele e ele, falasse um nihongô quase que perfeito. Quando se deu conta já tinham se passado três meses de encontros com o gaikokujin (termo para designar estrangeiro).

Sho também não falava muito dele, e muito menos que fazia filmes pornôs. Esses encontros iam muito além do sexo, faziam ele pensar sua sexualidade e seus sentimentos. No final do terceiro mês o estrangeiro falou que tinha que regressar ao seu país, pois viera apenas para fazer um serviço temporário de três meses. Foi um tapa no rosto do ator, foi aí que se deu conta que estava apaixonado.


O vídeo do Elos Act tinha sido um sucesso de vendas e a produtora resolveu fazer uma segunda parte, não era uma continuação, pois Sho me explica que as histórias em si não tinham uma conexão, mas o tema, os atores seriam utilizados em toda a trilogia. Não sabia até que ponto o seu relacionamento com o gaijin tinha influência, mas resolveu palpitar no roteiro, e ele, que tinha sido uma espécie de vilã
o na primeira história, na segunda parte ele foi o mocinho.

E Sho me contou que suas angústias, traições estavam nesse filme. Foi muito difícil ser artificial técnico, pois boa parte do roteiro tinha pitada dele. Eu tenho que confessar que quase cheguei a rir quando ele me contou, porque (sim, reconheço o preconceito da minha parte) era muito inusitado pra mim imaginar um ator pornô falando de um filme como se fosse uma obra do Almodóvar, cheguei a achar (putz me sinto péssimo falando assim) que ator pornô fosse também um michê , sim pode até haver, mas não no caso dele.

Quando terminaram as filmagens do Elos Act2 (Edge Life of Story), Sadistic Lovers também sentiu que terminou um ciclo na vida dele. Algo mudou por dentro e ele passou a ter mais segurança interna. Como sua vida profissional estava indo bem, saiu da casa dos pais (confessou que não foi fácil ver sua mãe chorar na despedida) e sua situação com a família não foi a mesma. Na verdade, é a mais superficial possível. Mas foi uma espécie de marco, um momento que ele assumiu pra ele mesmo sua sexualidade, seus sentimentos, sua vida.


Eu estava num bar, em dezembro do ano passado, quando Sho me confidenciou esse pedaço da sua vida. No final, ele explicou que a razão pra ele ter me concedido esse depoimento é por saber que eu sou brasileiro, e o estrangeiro que ele viveu durante três meses, era da mesma nacionalidade. Nossa, eu me arrepiei (mesmo agora, to tremendo) quando ele me falou isso, fiquei emocionado.


Eu sei que o meu final de ano, alias, os últimos meses de 2007 foi de u
m baixo astral pra mim... e alguns leitores perceberam pelos meus posts, mas ao mesmo tempo tive um relato desses no finalzinho do ano. E fiquei pensando na época, será que publico isso? Afinal, é a vida e intimidade de alguém que existe de carne e osso e quem sou eu... pra ter o direito de expor a vida de alguém assim?


No começo da semana recebi o e-mail de um amigo meu, dizendo que um amigo gay nosso tinha falecido. E ele era tão cheio de vida. E me lembrei que o grande desejo dele era ter um caso com um japonês. Quando eu te
rminei a conversa com o Sho, ainda perguntei na dúvida (na verdade tava é com medo dele não gostar e por um processo em mim, eu que não tenho grana pro meu dia-á-dia, quanto mais pra um advogado), posso mesmo publicar, caso eu resolva? E ele ¨Pode, a partir do momento que eu fiz o Sadistic Lovers, acabei descobrindo que a gente tem que viver o presente, essas regras que a sociedade japonesa impõe (ele acha que a brasileira é livre de preconceitos) são convenções. E eu não consigo mais ficar preso a essas convenções, quero mais é viver o meu cotidiano sem agredir os outros. Talvez a minha profissão não seja digna aos olhos de muitos cidadãos japoneses, talvez a minha sexualidade incomode outras pessoas. Mas já deixei fazer disso um sofrimento, em algo pesado, hoje quero viver a leveza, o presente, o momento.


Guilherme, essa lição de vida, dedico a você que também soube viver uma vida repleta de emoções.


PS: quero agradecer a foto e a ilustração que o Sho me enviou, sua dedicação, sinceridade, e despreendimento. Agradecer a D Cristina que traduziu para o japonês esse meu post assim como a conversa.

21 comentários:

RMax disse...

Aeeeeeeeee. Rapaz, ce ta pegando umas pautinhas do caralho, hein? Ops, sem trocadilhos, por favor.

Então, no meu computador as fotos estão aparecendo distorcidas. E no seu? Tá certinho ai? Meu browser é o firefox.

Parabéns e eu fiz uma discussão sobre o seu comment lá no post.

Alberto Pereira Jr. disse...

primeiro, quero agradecer sua visita ao meu blog..

e nossa que coragem do Sho.. pq pelo pouco que eu conheço a sociedade japonesa é muito ligada a tradição e a competicção.. só o fato de ter trancado os estudos deve ter sido uma verognha para seus pais.. ainda mais trabalhar como ator pornô e ser gay...

parabéns pelo blog!

Oscar disse...

Olá Dan

Curti muito o teu post, vc ja viu o meu mail???? espero que vc goste da minha intromissao.
depois vou te passar o endereço do meu blog novo ainda estou aprendendo a fazer estas coisas. so tem um post pequeno, quero escrever mais antes de passar o endreço para os amigos.

Oscar

Cida Medeiros disse...

Parabéns pelo post! Uma bela reflexão me despertou. Adorei a ilustração. Abs. Cida Medeiros

Paulo disse...

Belíssimo post!
Não sei a luta contra o preconceito terminará algum dia, mas são atitudes como a sua que dão mais força a todos.
Parabéns!

PS. As fotos também estão distorcidas no meu browser, IE7.

Abraços!

André San disse...

Olá, tudo bem? Muito bom esse post. A vida real é mais interessante que qualquer obra de ficção. Fiquei impressionado com a história de Sho! Um abraço!
www.tele-visao.zip.net

Alberto Pereira Jr. disse...

oie Daniel, tb fico felzi como brasileiro de um filme nosso ganhar um prêmio tão importante.. e concordo que Central do Braisl é uma obra de arte, um dos meus filmes preferidos.

qto a Folha.. eu postei na sexta um post chamado PS.. dando uns rcadnihos e falei la que não to mais na Ilustrada não..

beijao

Mans disse...

nunca vi um pornozão oriental
acho que vale experimentar o experimental

Anônimo disse...

Adorei o post sobre o Sho. Uma história real, de uma pessoa real e que derruba um bocado de mitos e preconceitos sobre as pessoas que trabalham como atores/atrizes de filmes pornôs. A vida desses profissionais não á fácil nem aqui nem aí do outro lado do mundo, então imagine numa sociedade que é tão presa a tradições como isso deve pesar. Li esses dias que o Alexandre Frota disse que se arrependeu por ter feito filmes pornôs e tals, ou seja, algo deve ter ocorrido para ele ter chegado a essa conclusão.

Abração, Dan!
Junior The_Riddler

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Agradeço pela visita e comentários no blog FABIOTV. Abraços, Fabio

Kamui disse...

Oi Dani, então o e-mail drfujitaka do yahoo é meu mesmo, mas não faço parte de grupo algum, só o uso para postar no blog mesmo...espero ter respondido a pergunta.

Quanto ao post, gosto da sua inventividade, você sempre está inovando e trazendo algo de bom para o seu blog, e pra mim isso significa que você está indo bem!

Abraços

Cris

Roberta disse...

Olá Daniel,
Achei seu blog via o da Gabi gostei muito. Variado, bem escrito, legal mesmo!
Curte esse país maravilhoso e de pessoas melhores ainda. Morei um ano no Japão (Niigata) e curti muito esta terra. Espero que você esteja gostando e que tua estada estada seja repleta de boas experiências e amigos.
Soredewa, o genki de, yoroshiku onegaishimasu!
:-)

Eri disse...

Hey,
Gostei muito do post. Realmente, saber sobre a história de alguém é sempre emocionante e nos faz pensar sobre os nossos preconceitos, paradigmas e tal. Você realmente varia muito a sua "pauta", hein!

Beijosss ^^

Eri disse...

Bem, respondendo às suas perguntas no meu blog: eu assisto às novelas e afins pela internet mesmo. Algumas coisas assisto online, outras eu faço download (Bara no nai hanaya, por exemplo). Aqui no Rio tinha um lugar onde era possível alugar vídeos e comprar livros, mangás e etc., mas fechou.

Alberto Pereira Jr. disse...

moço, muito obrigado pelos elogios aos meus textos viu?, fico muito lisonjeado

tudo que escrevo no blog é com muito amor e vontade de entender e compartilhar oq penso

beijao

CLNY disse...

Muy interesante!!!

Anônimo disse...

Daniel leio sempre teus comentários no blog do Nassif. E aprendi a gostar de ti,
lendo o que escreves post sobre o Sho é lindo. Eu luto ha muitos anos contra o preconceito. E a homofobia é o pior deles. Quantos homosexuais ja foram mortos pelo preconceito. Mas vale a pena a gente lutar sempre.
Um abraço
Marise

Anônimo disse...

Muito obrigada por poostar isso.*só viu agora*
Eu sou fã do Sho e assito CW,mas não fazia idéia de como era a vida dele. :x
obrigada,mesmo! :*

paola259902 disse...

Eu sou muito fã do Sho *-*
Qual é nome verdadeiro dele?
Vocês ainda tem contato? beijao.

Anônimo disse...

Olá Dan, poderei lhe chamar assim?
{já chamei não é?} bom sou Dieya eu estava vendo aqui este post, eu particularmente amo os trabalhos do Sho, acho que ele quebra qualquer barrei de preconceito (y), amei!
Beijo:*

葵 Grazi disse...

Nossa. Eu fiquei arrepiada. Sério.
Principalmente pelo seu amigo que faleceu. ''~
E uau... Sho foi apaixonado por um brasileiro. Isso é quase inimaginavel.
Eu já gostava bastante dos trabalhos do Sho, sempre achei que ele quebrava pre-conceitos.
Pena que ele pensa que o brasil é livre de preconceitos xD (apesar de ser 85% menos preconceituoso que o Japão)
E... obrigada pelo post <3