sexta-feira, 7 de março de 2008
Falta alguma coisa
Existe um grau de artificialismo misturado com pessimismo rondando em boa parte da sociedade atual. Não devemos generalizar, mas isso vai desde a mídia ate no discurso e comportamento dos jovens de hoje em dia.
Lembrando de uma conversa que tive ano passado, conversando com a psicóloga Okumura do hospital Komagome de Tokyo, ela afirma que boa parte dos jovens (japoneses) que saem hoje das faculdades não tem a mesma garra e vontade que seus pais, aliados a um consumismo inebriado sem perspectiva de futuro. Sendo coincidência ou não, mas tenho amigos japoneses que quase toda a noite saem em bares noturnos, em karaoke, em suas rodas de amigos. Segundo a palavra de um deles: "Querendo aproveitar o momento que a vida oferece não quero levar a vida sacrificada dos meus pais (na época da bolha economia, anos 80/90) fazendo muito zangyou (hora extra), saindo do trabalho e indo em bares com os mesmos colegas de trabalho a mando do chefe, chegando altas horas em casa e minha mãe ficando sozinha cuidando de mim e meu irmão"; uma frase de um jovem mas que reflete uma certa desesperança de jovens da classe media da grande Tokyo, alguns nem terminam a faculdade, dormem em mangakissas (uma espécie de internet-café, mas com revistas, hqs) por ser mais barato que hotéis, fazendo baitos (serviço temporário) aqui e ali mas não querendo também um serviço pesado, sujo ou perigoso. Vão levando a vida...
Não apenas os jovens japoneses, mas os brasileiros residentes aqui, vem com o intuito do dinheiro, trazendo família, crianças e adolescentes em idade escolar. Eles estudam? Uma parcela sim, em escolas japoneses, outras em escolas brasileiras, mas há um numero grande de adolescentes que ficam na rua, com idade insuficiente para trabalhar, e não estão matriculadas em nenhuma escola. Pais preocupados em fazer bastante horas extras para economizar dinheiro rápido e voltar ao pais natal. A verdade que a gente sabe quando se inicia um processo mas dificilmente sabemos como termina. E muitas das historias dos brasileiros que resolvem trabalhar em outro pais geralmente a historia começa assim: vem como imigrante pensando em ficar dois, três anos e depois retornar para abrir um negocio, comprar uma casa, carro. Mas dificilmente termina assim, pois o plano inicial de ficar apenas três anos não conta com os percalços que as circunstâncias que a vida impõe , e esses três, se tornam cinco, dez anos, muitos ate resolvem permanecer pelo resto da vida fora do Brasil. Não demora e boa parte desses jovens sem estudos entram em gangs, aparecem em noticiário japonês dizendo que roubaram alguma loja, mataram um japonês, eh o brasileiro na midia.
Mas a imprensa também não colabora muito (lógico não generalizando, pois existem jornalistas éticos), indo sempre onde o mercado e a opinião de mercado impõe. Se for feita uma pesquisa de opinião perguntando qual a opinião de uma pessoa sobre a imprensa, se ela eh isenta, se você acredita em tudo que a imprensa escreve, muitos (e isso eh mundial, não se trata apenas de um pais) responderão com certeza que desacreditam da imprensa. O japonês carrega um nacionalismo exagerado, haja o fato de recentes filmes de guerras que os japoneses participarem ocultarem os latrocinios e violências sexuais que os soldados cometeram contra as mulheres chinesas, coreanas. Se um japonês comete algum delito contra um brasileiro, isso não eh noticiado pela imprensa japonesa, não com o devido destaque que eh dado para um assalto que um brasileiro cometeu. Por outro lado já ouvi que os jornais e revistas brasileiras não informam direito. Um exemplo, um jornalista do Tudo Bem (do grupo JBC) foi fazer uma matéria em uma empreiteira de uma festa que ocorreu ano passado sobre o arraial na província de Tochigi, cidade Oyama. Foi entrevistado um representante da empreiteira, mas no jornal apareceu como sacho (presidente) da empreiteira. Aqui não vai nenhum juízo de valor do erro em si, mas do amadorismo que permea boa parte da midia.
A grande midia brasileira parece correr contra acorrente, ou melhor em apenas uma corrente. Hoje em dia, se você pega um Estado de São Paulo, O Globo, Veja, Época, Folha de São Paulo não da para dizer em que que o conteúdo editorial se difere uma da outra. Parecem todos usar o mesmo discurso pessimista, atacar por atacar, usando o seu poder de formulador de opinião, atacando e destruindo reputacoes que grandes profissionais construíram: a crediblidade. Alguns, como a Veja distorcem informações afomentando ate o preconceito. Não eh de hoje que a maior revista de circulação do Brasil se caracteriza pelo anti-jornalismo. Para quem esta interessado, o jornalista Luis Nassif esta publicando em seu blog, uma serie de reportagens sobre o modo Veja de jornalismo e suas consequencias. Quem estiver interessado, clique aqui A primeira vez que isso me chamou atenção, foi a capa quando o cantor Cazuza se revelou portador do vírus HIV. Manchete de capa: "Cazuza, agonia em praça publica", isso numa época que falar de AIDS, ainda era algo temeroso, cheio de preconceitos, ainda se falava de grupos de risco, que apenas homossexuais, usuários de drogas e hemofílicos eram as ameaças e que podiam pegar o vírus. Cazuza, que alem de homossexual já utilizou varias drogas, apareceu na capa da revista pela primeira causando um terrorismo e aumentando o preconceito contra os portadores do vírus. De tempos em tempos a revista foi se especializando com matérias desse tipo, e algum tempo depois, mais precisamente na eleição do presidente Lula, passou a ser o carro-chefe de ataques que toda a mídia passou a seguir atrás. A Veja começou a pautar as edicoes dos grandes jornais, noticiário na tv, e revistas concorrentes. Se me perguntarem se não houve mensalao, se não houve corrupção no Lula, vou dizer que houve. Mas o ponto que levanto eh o discursso único que aparece, o pessimismo exagerado, o denuncismo por denuncismo. Não estou de forma nenhuma dizendo que nao existem profissionais de ética e responsabilidade que fazem sua auto-critica, o pensar da sua profissao: Kennedy Alencar(politica), Luis Nassif(economia), Ricardo Feltrin (editor-chefe da Folha Online e fala de celebridades no programa Ooops), Juca Kfouri(esportes), Erika Palomino(moda, diversidade), sao alguns profissionais, que cobrem areas completamente diferentes dentro do jornalismo mas que ainda fazem a auto-critica, dentro e fora do seu meio.
Me preocupa esse destaque exagerado o foco em celebridades, saber quem se separou de quem, o reality show de maior audiência ser pauta obrigatória e manchete como se fosse acontecimento de extrema importância. Essa preocupação com audiência, numero de leitores, numero de acessos na internet, nivelando para baixo a programação em tvs, matérias jornalísticas. Esse jogo que o mercado impõe a aparência.
Aparentar bem , a imagem do produto (no caso a pessoa, o ser humano) eh mais importante que a pessoa em si. Esse artificialismo que combina com o pensamento da idéia de sempre se dar bem, de priorizar o interesse individual em cima do interesse coletivo.
Parece que esta faltando alguma coisa.
O que esta faltando eh olhar para o lado, não apenas o umbigo, ter pena de si mesmo. Ver que existem pessoas se mobilizando para o bem, para o coletivo. Aceitar a diferença, mas tratar como igual e lembrar que os direitos são iguais para todos. Em um mesmo espaço, o direitista e o esquerdita, o gay e o hetero, o branco e o negro, aceitar o conflito. Em uma democracia, eh fundamental a tolerância de ideias adversas. Exatamente isso que falta, tolerância para uma co-existência , uma integração. Os resultados positivos aparecem sim, passo a passo, devagar .
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10 comentários:
Durante algumas décadas era vendida a imagem de prosperidade para quem trabalhasse muito. Todo mundo comprou essa idéia. Os anos Reagan fermentaram o individualismo, o que tornou-se uma catástrofe social com o declínio das economias. Em países de regime socialista, o prometido também não foi cumprido, houve apenas um grande atraso em relação as grandes potências. Nós apenas enfrentamos as consequências. Ainda enfrentamos o processo de desilusão.
Quanto aos jovens brasileiros não matriculados no Japão, deve-se dizer que a adaptação é muito difícil. Além de os sistemas educionais e culturais serem bem diferentes, há o bullying. É difícil ser aceito na sociedade, há realmente um nacionalismo forte, e quando algo de errado acontece, é mais fácil culpar o estrangeiro.
Agora falando de jornalistas. Há um grande despreparo, começando pelas faculdades que pipocam. Por mais inútil e chato que pareça, teoria e questões acadêmicas são o grande diferencial. Infelizmente, a maiorias dos cursos só investe na prática, coisa que qualquer macaco treinado pode fazer com um manual de "quem, quando, onde, como e por que". Poderia falar mais, mas esse comentário já está exageradamente grande. Sorry!
Oi, Daniel. A Eri entrou no meu blog há pouco tempo e desde então tenho frequentado o dela. Fiz alguns comentários, mas não sei se sou o Alê que você perguntou. Pra falar a verdade, desde que entrei nesse mundo de blogs, tem chovido Alexandres nas páginas que leio, já fizeram até confusão.
Bom, obrigado pela visita. Quando atualizar, vou te adicionar nos links. Um abraço!
Oi Dani
" Aceitar a diferença, mas tratar como igual"
Este é o maior problema do mundo: o preconceito. Preconceito contra o negro, contra os gays, contra o pobre,etc...
O teu post está lindo. Gosto de ler o que escreves. Com muita sabedoria,e por um jovem da nossa época.
Um beijão
Marise
Dani
Deves te perguntar o porque de uma mulher idosa como eu, escreve comentários no blog de um menino.
Tenho tres filhos com bem mais idade do que você, mas todos lutam para contra o preconceito e para que nosso país seja melhor para seus filhos.
O que eles pensam e fazem é muito parecido com o que pensas.
Por isso, comecei a gostar de ti, tão jovem e com uma inteligência e sensibilidade tão grande.
espero que me aceites, apesar da idade, como tua amiga. Para o que precisares.
Um beijão
Marise
a juventude de hoje é muito imediatista, pro mal de tudo e o consumo inútil das propagandas inúteis fazem uma lavagem cerebral bem inteligente para que esse ciclo não se acabe... e claro que pode postar sobre a minha música... email soon!!
Oi Dan,
Achei muito interessante este seu último post por n razões. A principal dela foi você conseguir fazer um apanhado de vários assuntos e chegar a um denominador comum que é a da "superficialidade" das coisas. A forma como a mídia (e aqui estou generalizando como mídia, tanto a imprensa quanto os artistas e celebridades-miojo: as que vc pões na água e sua fama surge em três minutos) tem banalizado o que realmente deveria ser considerado importante, e o pouco caso que tem sido feito de assuntos que realmente importam são visíveis.
Da mesma forma que vc está testemunhando essa situação dos jovens aí no Japão, estamos vendo essa falta de perspectivas aqui no Brasil também. A moda aqui é falar em "atitude" (palavra que todo mundo usa mas ninguém tem), só que para os 'nossos' adolescentes, atitude se resume no visual (cabelos, roupas muitas vezes desconexas, e discursos demagógicos e altamente pedantes, mas somente discursos) enquanto que AÇÃO mesmo, nenhum tem. O pessimismo é reinante e até a bela filosofia do "carpe diem" (aproveite o dia!) está distorcida: viva bem hoje pois a situação vai piorar amanhã. É triste mesmo ver noticiários, revistas e se deparar apenas com coisas ruins. Isso nos dá a falsa impressão de que tudo está perdido e não há luz no fim do túnel. Notícias de pessoas que tem feito algo de bom ficam perdidas em meio a tantas coisas ruins e, normalmente, não ganham um destaque pois não "vendem". O que o povão quer é ver o chamado "mundo-cão": jornais que estampam sangue nas capas, "jornalistas" que atacam bandidos em rede nacional, que expõe a miséria humana em frente às câmeras, pessoas que se deram mal e etc. Basta vc ver a onda que está agora das pessoas filmarem bêbados em estado deprimente tentando se equilibrar e mandando isso por e-mail. E rindo. E achando o máximo!
Numa sociedade onde 64 milhões de pessoas são capazes de pegar um telefone para "derrubar" um participante de reallity show enquanto que bem menos de 2 milhões se mobilizam para doar 5 reais para uma campanha de apoio a ciranças da UNICEF ou a uma casa de apoio à portadores de deficiência, não é de se estranhar que a política do "pão e circo" romana ainda seja reinante.
Em tempo, sobre a questão dos discursos demagogos da 'juventude' de hoje: estava lendo hoje uma pequena matéria em que Nanny People (uma artista nacional) atacou as Paradas Gay, dizendo que as mesmas nada mais eram que 'micaretas' onde as pessoas iam para se pegar e onde o cunho político se perdeu a muito tempo. O interessante foi ver que muita gente concorda com a opinião dela, e outros tantos 'tacaram pedras', e, quando vc pára para conversar com os apedrejadores, eles falam que temos que lutar, que a parada é importante para visibilidade (discursos pré-fabricados) e depois de um tempo o papo que rola é "na parada do ano X peguei tantos... fulano pegou tantos... a roupa de não-sei-quem estava uó... e etc." Ou seja, ninguém se preocupou em estar lá por conta das travestis que foram assassinadas a algumas semanas, ou por causa do casal gay que foi agredido em Ipanema, ou por que, simplesmente, somos todos GENTE e todos temos o direito de viver sob o mesmo céu, independente de cor da pele, de status social ou ainda de sexualidade.
A propósito, muito obrigado por suas visitas ao X-nema. :) É sempre ótimo saber que você passou por lá e leu o que eu escrevi!
Abração!
Olá, tudo bem? Bom ler seu artigo sobre a vida do jovem no Japão. A minissérie Haru e Natsu terminou nesta sexta-feira...Muito interessante e emocionante... Nota 1000! Abraços, Fabio
Sempre li que a cultura japonesa (e não só a japonesa) prega o trabalho árduo e sacrificante como o ideal de uma vida perfeita. Talvez o jovem tenha percebido que, apesar de seus pais terem seguido este pensamento, suas vidas não se tornaram exatamente "perfeita". Talvez seja o momento de uma revolução cultural no Japão. Se é bom ou ruim? Não sei! Só o tempo pode dizer. Um abraço Daniel e obrigado pelos comentários!
www.tele-visao.zip.net
Dan, sobre os filmes de super-heróis, "Mulher Maravilha" está em (eterna) pré-produção (se for para ficar igual "Mulher-Gato" é melhor que nem saia desta etapa!) e já a produção de "Liga da Justiça" está indo de vento em popa. Salvo engano já existem atores contratados para o elenco e o roteiro já está quase finalizado.
Estou na expectativa para ver "Homem-de-Ferro". Os trailers ficaram muito alucinantes e eu gosto do trabalho do Robert Downey Jr.
Abração!
Pois é, Dan! O tal "comentarista-virótico" não tenho a menor idéia de quem seja. Eu não saio clicando em links da forma como foi postado e, como não uso esse esquema de moderação de comentários, nem sabia que podia apagar comentários feitos. Agora apaguei e sempre que algo do tipo surgir, já apago logo! :) Sobre os filmes da Marvel X DC Comics, o incrível Hulk deve sair tbm no próximo ano. E ouvi rumores de que "Superman - Man of Steel" deve entrar em pré-produção até o final desse ano. Sobre a "Mulher-Maravilha", acho que a boataria da pré-produção está mais adiantada do que imaginamos, pois até cartazes de divulgação o estúdio tem 'liberado' em alguns eventos. Me lembro que eles começaram assim com "Transformers" e depois, a toque de caixa, fizeram o filme. Mas, assim como dezenas de outros projetos, a coisa pode parecer que vai sair do papel e ser engavetada de vez ou adiada indefinidamente (vide quanto tempo levou até que o último Superman realmente viesse ser feito). Só para constar a bomba "Mulher-Gato" começou a ser discutida em meados de 1993... Falando em filmes de heróis, estou com receio desses spinoffs de X-Men que virão: "Wolwerine" e "Magneto"... depois de "Escorpião-Rei" e "Elektra" qualquer filme sobre 'personagens que ficaram bem em filmes sobre outros personagens' me deixam com medo de que se 'queimem' boas histórias.
Grande abraço!
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