Sábado, Setembro 10, 2011

André-San e a paixão por seriados de tv

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     Minha formação televisiva (existe essa palavra:?), começou na infância, como a maioria das crianças. Portanto, antes de ser noveleiro (quem me conhece ou me acompanha no twitter sabe que gosto de novela  ou um dorama no Japão), assistia além dos desenhos animados, seriados americanos.
     Antigamente os seriados de tv não eram bem visto pela crítica especializada, pejorativamente chamados de enlatados. Hoje, seja na tv aberta, seja no canal pago, ou até mesmo na internet, podemos assistir os mais diversos tipos de seriados, para  todo tipo de público.
    O jornalista André Santana, popularmente conhecido como André-San, é mais conhecido pelo seu blog, o Tele-Visão,  onde ele fala, é lógico, de televisão. Mas ele é também um exímio entendedor de seriados, tanto é que, ao concluir a faculdade de jornalismo, resolveu escrever um livro sobre o assunto. Com o título de ¨Séries em Série¨, conseguiu escrever uma verdadeira enciclopédia para os fãs de seriados. Com o livro, nasceu a coluna do mesmo nome que ele assina no  site Tele História.
      O André me deu o prazer de dar uma entrevista ao vivo (abusei, e estourei o tempo dele) para falar de seriados de tv, esse programa de entretenimento que existe desde que a tv , com fãs de todo o mundo.
     

     BLOG) Nome e profissão?

     André Santana) André Santana, jornalista

     BLOG)  Como surgiu seu interesse por séries e como foi parar na Tele História com a coluna Séires em série?
     André Santana) Meu interesse por séries existe desde que eu me entendo por gente. Das minhas lembranças de programas que via na infância surgem cenas de séries como Alf, MacGiver, Superboy, A Extraterrestre, Os Monstros, Jeannie É um Gênio, A Feiticeira... Sempre gostei! Mas não tinha TV a cabo, via o que a TV aberta ofertava, e era muito pouco. Mesmo assim, acompanhei muita coisa nos horários esdrúxulos da TV aberta mesmo. Uma de minhas séries preferidas é Friends que, embora eu já sabia que existia, só comecei a acompanhar mesmo quando estreou na TV aberta, na RedeTV. Mas acho que, mais tarde, com a internet e os DVDs, meu interesse cresceu consideravelmente. Fora que, antes de mais nada, eu sempre adorei uma boa trama, seja na literatura, HQs e, claro, na TV, e as séries, geralmente, trazem boas tramas.
     Mas meu interesse profissional no estudo destes programas aconteceu quando eu estava concluindo minha faculdade de jornalismo. Quando chegou a hora de eu escolher o tema do meu projeto de conclusão de curso, eu sabia de duas coisas: que deveria ser um livro e devia ser sobre TV. "Afunilei" o assunto até chegar nas atuais séries da TV americana porque, embora fosse um assunto que eu gostasse muito, eu ainda tinha pouco conhecimento técnico e histórico do tema. Pensei que o TCC seria uma ótima maneira de me iniciar no assunto, pois falar sobre TV aberta nacional não seria um desafio tão grande pra mim, já que eu estudo o assunto desde sempre.
     Meu projeto de conclusão de curso, portanto, foi um livro-guia chamado Séries em Série, cheio de informações sobre as séries atuais (de 2008, ano que me formei) da TV americana. Durante a pesquisa para escrever o livro, me veio a ideia da coluna Séries em Série. Como eu já tinha contato com o jornalista Thell de Castro, o diretor do Tele História (o portal já era parceiro do Tele-Visão e, até hoje, reproduz os posts do meu blog), ofereci a ideia à ele, que topou. Assim nasceu a coluna, que assino há três anos com muito gosto.



     BLOG) Como o senhor vê a atual safra de séries na tv brasileira, seja na tv aberta, como paga, seja nacional como estrangeira?

    André Santana) acho que vivemos num bom momento... no caso das séries brasileiras, percebo que hoje existe a preocupação em oferecer produtos diferenciados, num cenário onde anteriormente haviam apenas comédias.
O fato de a Globo abrir espaço para atrações de temporadas numa grade que sempre foi caracterizada pela rigidez é indício de que aperfeiçoar o gênero é uma preocupação. Fora isso, a Band também tem se mostrado disposta a investir em séries, o que também é muito válido
     Na produção estrangeira, vejo que a TV a cabo americana deu um sopro de vitalidade ao gênero, ao apostar em atrações com linguagem diferenciada, mais direta, mais dura até... testando novos formatos, sendo mais ousada. Há bons programas sendo exibidos


     BLOG) Como analisa o seriado como programa? Esse formato é uma boa alternativa para o público jovem de hoja, cada vez mais conectado com a internet? Seriado em tese é mais fácil de fidelizar, já que o espectador ficará preso apenas uma vez por semana?

     André Santana) Isso é relativo. No caso do Brasil, o hábito da novela está enraizado, então existe sim alguma resistência do público em "abraçar" um programa. Tanto que a Globo optou por produzir uma novela para bater de frente à A Fazenda, ao invés de seguir com suas séries
mas para o público jovem, sim, acho que é uma ótima alternativa. percebo que não há muita paciência por parte deste público diante de histórias intermináveis, e séries, mesmo que durem anos, tem episódios semanais, não ficam no ar o ano todo, fora que o formato permite tramas menos rígidas quanto à forma
fora que existe uma evolução do personagem... ele fica no ar por anos, cresce, amadurece diante do público. Isso forma público fiel, pois uma série pode trazer um personagem que "cresce" junto com sua audiência. Isso cria um vínculo, por isso fãs de séries normalmente são apaixonados por elas


     BLOG) Mas o atual público jovem, que como senhor mesmo disse não tem tanta paciência diante de histórias intermináveis isso não se torna um defeito?  Digo, se por outro lado,  a novela, que é um programa que exige do espectador assistir quase todo dia no mesmo horário durante quase oito meses de sua vida, quando um seriado obtém sucesso de público, dura quase uma década na média,isso não cansa o espectador e não há um desgaste nesse longo período?

     André Santana) Não necessariamente. Como eu disse, apesar de o seriado poder durar anos, ele é composto por episódios semanais. Além disso, o formato é muito mais abrangente que o de uma novela. São poucos personagens, não é preciso ser tão esquemático quanto uma novela, a liberdade é bem maior.
Claro que uma série que dura muito tempo precisa se renovar. Particularmente, também não tenho paciência pra séries que atravessam uma década. E se formos analisar em termos de números, o público também não. São raríssimos os casos de séries que ficam muito tempo no ar sem haver um desgaste.


     BLOG) Antigamente, creio que até meados dos anos 80 falava-se das séries americanas como algo pejorativo, os chamados enlatados. Hoje as séries americanas são um produto aceito pela crítica. A que se deve essa mudança?
     André Santana) Há vários motivos. No Brasil, as séries americanas foram, durante muito tempo (aliás, até hoje isso acontece), foram usadas como tapa-buracos na programação. Ou seja, as emissoras já o consideravam um produto menor, pois elas eram as primeiras a serem cortadas da programação em qualquer mudança.
     Mas temos que considerar o aumento da qualidade destes produtos. Com o passar do tempo, os roteiros foram ficando mais apurados, mais afinados. A qualidade técnica melhorou consideravelmente, hoje temos programas com qualidade de cinema, ou até superior.
Já me disseram que hoje o cinema anda conservador, e é a TV quem vem dando espaço à novidades. Isso seria um dos motivos pra que, ultimamente, tantos atores de cinema estejam sendo atraídos pela televisão.

     BLOG) Como vê a questão dos remakes? É uma boa saída? Por exemplo: Hawaí 5.0 foi bem aceito, mas A Mulher Biônica foi um fracasso. E usando como gancho, como vê a continuação ou volta de séries
90210 nada mais é que continuação de Barrados no Baile e está programado uma continuação do seriado-novelão Dallas

     André Santana) É sempre complicado refazer um clássico. Existem fãs ardorosos do produto original, que não gosta muito de ver outras pessoas encarnando seus personagens preferidos. Existe sempre a sombra da comparação, o saudosismo, tudo isso influi.
     Mas os remakes estão na moda, e tudo depende da maneira com que são feitos. Se forem bem-feitos, respeitando o original, agregando novidades, pode vir sim ser uma boa. Hawai 5.0 foi uma boa surpresa da última safra, é uma boa série, muito bem feita. Agora vem As Panteras aí... Vamos ver. Tudo depende de como é feito.
     No caso das continuações, acho meio estranho. No caso de 90210, é uma continuação, mas ao mesmo tempo não é. Os personagens antigos foram usados somente para a apresentação da série, mas logo sumiram e ficaram os "novos jovens". Achei esquisito porque se a ideia é atrair os jovens de hoje, eles não viram o original.Mas se a ideia é trazer de volta o público original, então... Mas nem posso falar muito, porque nunca fui fã da franquia, hehe!


     BLOG) Com o advento dos canais pagos e internet, o que o senhor pensa dos seriados feitos para um público específico? Por exemplo, o LGBT. Acho, que os de maior sucesso para o LGBT são os seriados Queer as Folk e The L World

     André Santana) O grande barato dos canais pagos é justamente essa capacidade de segmentação. No caso das séries LGBT, elas falaram diretamente para este público e foram muito bem sucedidas neste quesito. Porque foram muito fiéis, ou procuraram ser, ao retratar este universo particular.Quem viu, provavelmente se reconheceu em algum momento, ou seja, a série cumpriu sua missão. Um dos pontos para que uma série faça sucesso é justamente esta identificação. Além disso, falar diretamente a alagum público tem efeitos comerciais muito diretos, ou seja, é um bom negócio para as emissoras.
     E para a audiência, é sempre bom ver um programa no qual ela se identifica.

     BLOG) O curinga da Record, o Todo mundo odeia o Chris, pode ser um exemplo? Ao mesmo tempo que é para o grande público mas também é para a comunidade negra?
     André Santana) Sim, com certeza. Não somente a comunidade negra, mas também a "periferia" como um todo. Chris tem muitos elementos de identificação: o retrato de uma família, pois família é sempre família, ou seja, estão em situações que a audiência com certeza conhece; o fato de viverem na "dureza", praticamente todo mundo passa ou já passou por isso (digo, a massa da audiência de classe média); ou até na exploração dos tipos, como o malandro, o pão-duro... Todo mundo conhece alguém assim.


     BLOG) Como vê a produção de séries nacionais na tv paga como Mandrake e Alice só para citar alguns?
     André Santana) Acho ótimo! Assim como a TV paga americana contribui para que se construam novas linguagens de narrativa televisiva, a TV paga brasileira tem ido para o mesmo caminho.
Sou fã de Alice, é uma série linda, bem produzida. E toca em temas mais ousados, que não tem espaço na TV aberta. Além disso, dá espaço a profissionais que não tem esse espaço na TV aberta, que é bem fechada, hehe

     BLOG) Está ocorrendo na tv aberta brasileira algo parecido com o que ocorre aqui no Japão: séries americanas são exibidas no final da noite ou começo da madrugada. 90210 por exemplo, é exibido na NHK todo sábado a noite.No Brasil, a Globo exibe durante as férias do Jô séries americanas em seu horário. O SBT na sua madrugada exibe ou exibia seriados consagrados dos EUA. Podemos dizer que esse horário, o fina l da noite e começo de madrugada, já não é um horário ingrato e sim alternativa para pessoas que não tem acesso a canais pagos e que preferem o final da noite?
     André Santana) Atualmente, a Globo até tem uma grade fixa de séries na madrugada, de terça a quinta, depois do Jô. Bom, na verdade, as madrugadas recheadas de seriados ainda são fruto da visão das emissoras abertas de considerar estes programas mero "tapa-buracos". Recentemente, as emissoras "descobriram" as madrugadas, notaram que oferecer algo além de uma barra colorida neste horário atraía boa audiência. Mas como ainda preferem não investir pesado em atrações específicas neste horário, recorrem às séries, que já vem prontinhas, são mais baratas para elas e ainda dão audiência. Mas foi bom, porque isso formou sim um novo público para estes programas nestes horários. Particularmente, eu prefiro que as TVs abertas exibam estes programas tarde da noite, mas episódios na ordem e sem cortes, do que no horário nobre, onde as séries estão sujeitas a um cancelamento repentino a qualquer momento e aos desmandes da bobagem chamada classificação indicativa. Para alguns continuará sendo sim um horário ingrato, mas eu acho que é "melhor que nada", hehe! O vídeo cassete taí pra isso mesmo!
    André Santana)  Daniel, tá na hora do meu almoço... hehe... estamos acabando?

     BLOG) Quanto tempo tem? Tenho mais três perguntas tudo bem?
     André Santana) ok, vambora

     BLOG) Desculpa quatro.


     BLOG) De alguns anos pra cá, a Globo está exibindo seus programas em esquema de temporada curta. A maioria são séries. Como analisa as séries da Globo?
     André Santana) A grade da Globo é muito rígida. Vejo o esquema de temporadas como uma maneira de se renovar a grade, dar espaço a inúmeros profissionais, novas ideias, novos formatos. Isso é muito positivo.
Em contrapartida, a emissora muitas vezes aposta em temporadas curtas demais. Não dá tempo do público "descobrir" a série. Devia haver um maior equilíbrio aí.

     BLOG) A maioria das séries atuais da Globo são comédias. Atualmente o brasiliero prefere o humor? Antigamente a Globo produziu séries dramáticas como Malu Mulher, Ciranda Cirandinha
     André Santana) O público brasileiro foi formado com base em humorísticos, então aceitam melhor uma série mais engraçada. Mas isso não é garantia de audiência. Em 2008 a emissora lançou várias comédias, e nenhuma delas emplacou.
     O sucesso de policiais ou séries de mistério, como Força Tarefa e A Cura, mostra que existe sim vida além da comédia na produção seriada global.
     Ainda falta o público descobrir a beleza das dramédias. Tudo Novo de Novo e A Vida Alheia foram ótimas produções, mas tiveram receptividade morna. Mas a experiência é sempre válida. Um dia eles acertam.

     BLOG) Tirando a Globo, por que é difícil para as outras emissoras produzirem um bom seriado? A Rede TV fez Donas de Casas Desesperadas e ficou a desejar A Band também produz eou produziu mas nunca emplacou
     André Santana) As experiências da Band e RedeTV foram equivocadas porque eram adaptações de séries americanas, mas sem a preocupação em realizar algo mais de acordo com nossa realidade. Donas de Casa Desesperadas era surreal. Cenários com cara de bairro americano, elenco de apoio dublado, pessoas morrendo com o frio argentino tentando nos convencer de que estavam no Brasil. Tudo soava artificial.
     A Band adaptou comédias americanas, mas o humor deles é diferente do nosso. Quando tenta fazer algo diferente, até funciona. Hoje, Os Anjos do Sexo já chegaram a dar 3, 4 pontos de audiência que, para o padrão da Band, não é ruim.


     BLOG) O que acha da produção de webséries? Lisa Kudrow, depois que saiu de Friends, produziu e protagonizou a websérie Web Therapy.  foi sucesso na net.e depois migrou na tv...
     André Santana) Webserie é um novo formato que ainda está tomando forma. Por enquanto, acho que é um bom formato para experiências. Web Therapy é simples toda vida, baseada unicamente num bom texto, mas que teve boa aceitação e acabou migrando para a TV. Hoje, com as facilidades em se produzir conteúdo e postar na internet, a rede se mostra uma boa vitrine para novos talentos. Elas ainda não substituem as séries de TV, mas são um bom suporte.
     BLOG) Por fim, queria saber quais seus seriados que gosta e acompanha, seja da tv aberta, seja na paga.
     André Santana) Meu gosto é eclético. Adoro os dramas ousados da TV paga, como True Blood, Mad Man... Gosto das dramédias familiares, como Brothers and Sisters (já encerrada) e Parenthood. Adoro as novas comédias, como The Big Bang Theory e Modern Family. Sou fã de humor negro, como Desperate Housewives. E gosto de ficção e fantasia, como Fringe ou a cancelada V, Supernatural...

      BLOG) Queria agradecer ao senhor André Santana e pediria que deixasse o espaço final para o senhor divulgar seu trabalho seja coluna, site eou blog
     André Santana )Eu que agradeço. Sigo no meu blog no UOL Televisão, o Tele-Visão (www.tele-visao.zip.net), mantenho colunas no Tele História (www.telehistoria.com.br) e Guia da Semana (www.guiadasemana.com.br) e colaboro na editoria de TV do portal Paradoxo (www.paradoxo.me).





5 comentários:

apanhadogeral disse...

Parabéns! Já li o livro e conheço o blog, André é realmente um grande conhecedor. Também sou jornalista e é dificil encontrar pessoas que escrevem sobre TV com seriedade.

André San disse...

Oi Daniel! Puxa, você manteve até minha intervenção da hora do almoço... vão pensar que eu estava morrendo de fome! Hahahahaha! Obrigado pela oportunidade, e desculpe qualquer coisa. Grande abraço e conte sempre comigo! :)
André San - www.tele-visao.zip.net

@gwtto disse...

O André pedindo pra almoçar foi o melhor. Hahahaha... Rapaz, não acompanho nenhum seriado fielmente (vejo esporadicamente até os nacionais), mas torço muito pelo formato, principalmente na nossa TV. Sobre os seriados madrugada adentro, considero um erro sem tamanho. "Two and a Half Man", por exemplo, em plena 1h no SBT é sacanagem - e esse negócio de vídeo cassete não é do meu tempo, rs. Parabéns pela entrevista, amigo. "Ouvir" o que o André San tem a dizer/opinar é sempre um grande aprendizado. Abraço!

@gwtto disse...

O André pedindo pra almoçar foi o melhor. Hahahaha... Rapaz, não acompanho nenhum seriado fielmente (vejo esporadicamente até os nacionais), mas torço muito pelo formato, principalmente na nossa TV. Sobre os seriados madrugada adentro, considero um erro sem tamanho. "Two and a Half Man", por exemplo, em plena 1h no SBT é sacanagem - e esse negócio de vídeo cassete não é do meu tempo, rs. Parabéns pela entrevista, amigo. "Ouvir" o que o André San tem a dizer/opinar é sempre um grande aprendizado. Abraço!

www.galeriadenovelas.com

André San disse...

O Augusto pegou uma mania de me chamar de velho... huahauaha! Vou correr pro cirurgião plástico... Sim, eu tenho vídeo cassete, e ele me quebra um galhão! Mas quem tem gravador de DVD, pode usar também! E hoje dá pra ver qualquer série pela internet, né? Mas eu sou da filosofia "melhor estar no ar de madrugada do que não estar no ar". ;-]