Segunda-feira, Setembro 26, 2011

Nelson Sheep

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     Em setembro do ano passado, estive em São Paulo, minha cidade natal. Aproveitei e revi alguns amigos gays, e dei uma olhada na cena gay paulistana. Apenas uma olhada, porque fiquei apenas um pouco mais de um mês em SP.
     Estou praticamente dez anos no Japão, então muita coisa se modificou,, e para minha agradável surpresa, se modificou para melhor. Brasileiro morando no exterior é foda... por mais que a gente fique atualizado com os acontecimentos da terrinha, via tv, internet, jornal, etc, quase sempre se tem uma imagem não positiva comparando com o país que vivemos atualmente. Digo não apenas brasileiro no Japão, mas brasileiro vivendo nos Estados Unidos e Inglaterra, porque  já havia teclado via messenger com alguns brazucas desses países. Tomo a liberdade de achar que a maioria dos brasileiros no exterior sempre comparam o momento atual em seu país com o Brasil, achando que o país que por um motivo ou outro escolheu para viver é melhor que o Brasil. Para mim, uma das explicações, é temos em mente no nosso inconsciente  o Brasil que deixamos, com lembranças e mágoas pessoais e/ou profissionais. Veja bem: não estou cuspindo no prato que estou comendo, porque adoro o Japão , adoro Tokyo. Fui com um amigo japonês a terrinha (ele ficou menos tempo que eu), e justamente por isso, fiquei preocupado. Fiquei preocupado(mais porque me sentia responsável por ele) com a tão falada violência brasileira, de ser assaltado e pior, ele ser assaltado ou coisa pior. Mas nada disso aconteceu, também por sorte, por onde passamos não houve nada, e ele me disse no aeroporto que os brasileiros são pessoas calorosas e agora sabe porque seus ancestrais escolheram o Brasil para morar mesmo que o Japão seja melhor em muitas coisas.
      Tirando esse parêntese e voltando a cena gay paulistana, fui ver algumas casas que já conhecia e outras que não. Um dos meus guias foi o blog gay Superpride, do Nelson Sheep. O blog é um ótimo guia das boates gays e para quem gosta de música eletrônica, e isso independe de sexualidade, o blog é uma referência. Segundo Nelson Sheep, o editor-chefe e seu criador, o blog foi criado despretensiosamente, mas muitos leitores gays foram se identificando com sua maneira de escrever, e ele foi crescendo de tal forma, que hoje não é apenas um blog, mas um site gay de sucesso, inclusive comercial, com anúncios e patrocínios . Digo isso, porque se para um mercado hétero já é difícil esse êxito, o mercado gay brasileiro, mais restritivo, é bem mais difícil. E hoje, além de textos sobre a cena gay paulistana, Superpride é uma espécie de revista leve, abordando temas como beleza, moda, celebridades, mas também de assuntos sérios, como homofobia, AIDS, bareback, mas sempre com aquele ar leve, assim como seu criador. Além disso, com o passar do tempo, Superpride conseguiu um time de colunistas , uma delas inclusive é hétero.
       Nelson Sheep é representante da nova geração de gays da classe média paulistana, com ar leve, consciente de seus direitos gays, com neuras como qualquer pessoa, e um incondicional l virginiano, com todos defeitos e qualidades que esse signo tem.
     Ele me deu o prazer de dar uma entrevista via e-mail. Era para ser postado semana passada, mas devido a problemas pessoais fiquei fora da net e peço desculpas publicamente.
     Abaixo a entrevista:







BLOG) Nome e ocupação
NS: Nelson Sheep, radialista, blogueiro e mais um monte de coisas...

BLOG) Fala um pouco do surgimento do Superpride
NS: O Superpride nasceu da minha vontade despretensiosa de contar para o mundo as besteiras em que me meto nessa vida homossexual paulistana. Junte a isso a minha indignação com os portais gays, que, na minha visão, não noticiam coisas que realmente façam a diferença no meu dia. Pode colocar na lista também a pornografia que a grande maioria dos sites para esse público explora. É praticamente impossível abri-los no trabalho, porque logo vem um banner com homem pelado gritando na tela. Essa é a minha grande preocupação: ter um espaço livre de signos, bandeiras e pornografia, que qualquer um possa acessar sem ter que passar por constrangimentos ou censuras.

BLOG) Você é editor-chefe do Superpride. O blog dá maior abordagem a cena gay paulistana.Até um tempo atrás as boates abriam e fechavam com bastante frequência. Pelo que meus amigos  dizem, houve uma estabilização. Concorda? Como vô o atual momento das boates?
NS: Na verdade estabilização não é bem o termo que poderíamos usar. O que aconteceu na noite paulistana foi uma acomodação descarada, em que ninguém mexe com o que é dos outros. É como se tudo já estivesse arranjado, todos ganhando seus pães de cada dia, botando de lado uma das premissas mais importantes do mundo capitalista: a concorrência. A gente sabe que um embate de frente é mais do que saudável e dá a preciosa opção de escolha do público, que é o verdadeiro propósito disso tudo.
BLOG)  Em São Paulo se quiser jogar na pista temos a The Week, quem gosta de show de drag tem a Blue Space ou a Nostro, ou quem quer um programa alternativo já sabe que tem A  Lôca; São Paulo é a cidade brasileira com maiores opções de baladas e boates para o público gay?

NS: Apesar de todo o marasmo, ainda sim estamos anos-luz à frente de outras cidades brasileiras. É bem verdade que a cena gay pelo Brasil teve um crescimento vertiginoso nos últimos tempos. Prova disso é a quantidade de festas, festivais repletos de Djs internacionais que invadiram o país, passando bem longe do eixo Rio‑SP, mas ainda sim, somos a “grande opção”.

BLOG)  Sei que o blog não é apena de baladas e sempre teve outras pautas, mas  a  ênfase maior é a cobertura da pista paulistana, só que, gradativamente venho percebendo a abrangência da pauta relacionado a temas LGBTs, enfocando desde assuntos sérios como o preconceito gay, como assuntos mais leves como moda.E o Superpraide já tem alguns  nos. Na sua apresentação disse que criou o SP despretensiosamente. e hoje já tem colunistas (sou fã do Claudio Nanti), e um público fiel e crescente. Como vê essa evolução?
NS: Ela é natural. Cada novo acesso, cada novo leitor nos obriga ter um aumento na responsabilidade em escrever. Junto com isso, recebemos a grata obrigação de responder suas expectativas no quesito conteúdo. É com isso que nos importamos: abordar o maior número possível de temas, pra atender a demanda dos nossos leitores fiéis, e conquistar novos amigos. Nos cobramos muito nesse sentido e tentamos a todo custo desbravar o Brasil em busca de pautas pertinentes que façam a diferença. Nosso maior presente é saber que estamos no caminho certo. E quem nos indica isso são nossos Superpriders.

BLOG) Fez recentemente 24 anos (meus parabéns) . Eu moro ao lado de  Tokyo e conheço gays de várias faixas de idade, assim como em São Paulo. É impressão minha,ou é menos difícil hoje em dia o adolescente ou até mesmo um jovem na faixa dos 20 anos de uma metrópole como São Paulo, Rio, ser gay, e, principalmente, se aceitar? Certas encucações que o homossexual dos anos 1970 tinha, a atual geração parece não ter tanto...

NS: Obrigado pelos parabéns! 24 anos é uma idade considerável... hehehe!
Sem dúvida nenhuma é mais fácil ser gay hoje em dia. Você ainda foi longe! Visualizo uma cena preconceituosa muito mais recente do que os anos 70. Na minha época de colégio, ainda respirávamos uma intolerância bastante grande. O mundo muda muito rápido e com ele aquelas velhas opiniões formadas sobre tudo... Rogo aos céus pra que essa mudança seja ainda mais veloz. Que essa geração que tanto massacrou os gays vá embora rapidamente para os quinto dos infernos. Tenho fé que a nova juventude colorida seja a salvação para os gays que estão por vir. Enquanto isso, fazemos nossa parte: divulgando nosso lifestyle para todos. Costumo dizer que o preconceito contra os gays vem, além de outras questões, da total ignorância de como nós vivemos. A partir do momento em que minha vizinha entender que eu não sou integrante de um bando de homens sem vergonhas, que se vestem de mulher, tem desvios sexuais, que atacam outros homens... o mundo será um lugar melhor pra se viver.

BLOG) Ao mesmo tempo existe a outra ponta também. Os casos de homofobia aumentaram, não apenas a mídia LGBT, mas a mídia oficial relata casos de espancamento e bullying; A senadora Marta Suplicy mesmo disse se assustou com o crescente aumento casos de homofobia. Como analisa essa questão?

NS: Faz parte do choque cultural! Como disse antes, o mundo está mudando muito rapidamente e, infelizmente, tem gente que não lida bem com essa movimentação, extrapolando da maneira mais vergonhosa que um ser humano, que é dotado de raciocínio, pode fazer: agredindo os outros. Essa resistência ainda deve persistir. Ao mesmo tempo temos um fato bastante interessante, que apesar de ser lamentável, joga em nosso favor: heteros estão batendo em heteros. Não tenho ciência de que isso tenha acontecido em outro lugar do mundo, mas aqui no Brasil isso tem se tornado corriqueiro.  Quem sabe desta forma nossos legisladores percebam que todos são passiveis de serem vitimas da homofobia e assim acabem votando em leis que protejam a sociedade.

BLOG) Nas redes sociais em que está cadastrado a sua preferência política é o PSDB , mas também gosta de algumas coisas do PT. Como vê a atual legislatura política e os atuais políticos no contexto LGBT?  Por que o Brasil está atrasado em certos temas, como a união homo--afetiva, ou o casamento gay, em relação aos seus vizinhos latinos como a Argentina?
NS: Porque o brasileiro odeia política! Infelizmente não somos uma democracia. O Brasil vive um socialismo mascarado em que a população acredita firmemente que quem deve resolver todos os problemas que assolam nossa sociedade é o Governo. Veja a quantidade programas de repasse de verbas existente por aí. Brasileiro tem preguiça de pensar, de brigar, questionar e protestar. Deixa que o outro resolva! E assim vamos nos conformando com as coisas... os políticos vão se acomodando, fazendo suas gordas poupanças. A mesma coisa se aplica a comunidade LGBT, que só se junta na boate, na sauna ou pra beber vinho batizado na Av. Paulista, no que eles acreditam ser uma Parada Gay. Enquanto continuarmos na inércia nada muda! 

BLOG) E a mídia LGBT brasileira como analisa? No mercado editorial parece que é difícil emplacar uma revista não? Tirando a GMagazine, Junior e A Capa, que já tem um público consolidado, as que aparecem quando aparecem não conseguem se firmar.Quais sites e blogs que lê e gosta?
NS: Olha, não pense que essas revistas estão tão bem assim. A G Magazine tá pela hora da morte, devido o crescimento da pornografia na internet. Pra que vou comprar uma G, sendo que tem pencas de homens pelado fazendo sexo, em vídeos quentíssimos no XVideos?
A Junior e a A Capa são uma extensão dos portais de que fazem parte. Tem conteúdo diversificado, mas não são instantâneas como os textos publicados online. Não só essas revistas, mas como todas as publicações impressas estão com os dias contados. Vá por mim! Trabalho com isso, e conheço bem essa realidade... Enquanto aos sites e blogs que leio você ficaria assustado com a quantidade. Não me prendo apenas aos gays, mas tenho o costume de acessar os grandes portais como UOL, G1, Folha, Terra, IG... Dentre os gays, acesso o MixBrasil, A Capa (que pra mim é o melhor), Cena G, Parou Tudo... Ih! Minha memória vai falhar! Tenho tudo organizado em pastas. Quando acordo, abro todos os sites e todos os blogs e os leio. Tem gente que não acredita, mas estou de olho em toda a concorrência. Toda! Do menor blog, ao maior portal internacional. Não me prendo ao número de acessos diários que essas páginas gozam. Preocupo-me muito mais com o conteúdo publicado lá. O Superpride também já foi pequeno!

BLOG) A AIDS surgiu com o estigma de câncer gay. Hoje sabemos que não é nada disso. Ao mesmo tempo há uma gama de remédios que dão uma qualidade de vida superior que faz com que, muitos, erroneamente deixem de utilizar a camisinha. Parcela significativa de jovens homossexuais não se protegem tanto; Ao mesmo tempo também aumenta a onda de bareback. Como alertar o jovem gay de hoje da importância da camisinha. Alias é importante p você a camisinha ou deixa ao livre arbítrio de cada um?

NS: Tenho lá as minhas dúvidas em relação a necessidade de avisar as pessoas que fazer sexo sem camisinha é perigoso. Todo mundo tá careca de saber disso! Devemos enfrentar o desafio de desencorajá-las a experimentar essa forma de prazer, como o bareback. E: use sempre camisinha!

BLOG) Quais os planos para o Superpride e fora o blog tem algum projeto?
NS: Crescer, crescer e crescer! Enquanto todo mundo acha que o mundo vai acabar em 2012, nós aqui traçamos metas, estratégias e perspectivas de crescimento sustentável. Não posso adiantar muita coisa porque acredito no fator surpresa. Mas garanto que o Superpride vai ficar mais maduro! Entenda como quiser...
BLOG) Queria agradecer pela entrevista e queria que deixasse alguma mensagem para os gays brasileiros residentes no exterior
NS: Quero deixar um beijo enorme pra todos aqueles que estão longe de casa. Mais o que isso, torço pra que voltem logo ao Brasil. Nós somos o país do presente e precisamos de vocês aqui!
Beijos enormes no coração de cada um!

1 comentários:

Rubianni disse...

Ola,adorei a entrevista,admiro o nelson Sheep demais,ele mora em meu coraçao,por mais engraçado que pareça sou Hetero,mas penso que tenho a alma gaymacho o trabalho dele simplesmente maravilhoso,e as vezes morro de medo pela segurança dele....ele é uma figura publica esta in foco,mas eu o amo mesmo assim..nelson sou sua Fã munero mil..te adoro