Sexta-feira, Outubro 14, 2011

Leo Cavalcanti e as várias faces de sua música


    Sou fã do programa Vozes do Brasil, apresentado pela Patrícia Palumbo, na rádio Eldorado FM de São Paulo. Foi nesse programa que ouvi pela primeira vez, Leo Cavalcanti. Nem lembro mais qual a música que ouvi (que vergonha), mas me lembro da sensação: parei tudo o que estava fazendo e prestei atenção na letra e no som. Nossa, me arrepiei naquele momento, fazia muito tempo que não ouvia algo diferente. Passado algum tempo, li uma matéria no caderno Cultura do jornal O Globo falando dele, e descobri que ele é filho do cantor/compositor Péricles Cavalcanti. Pra mim foi o máximo, porque ele é outro que admiro, embora tenha ouvido pouca coisa dele.
  Voltando ao Vozes do Brasil,  foi lá que também que ouvi Arrigo Barnabé cantando Clara Crocodilo, embora já conhecesse tanto a música como o cantor.
     Pois bem, no meu caso descobrir Leo Cavalcanti foi o mesmo que descobrir Arrigo e os cantores de sua geração como Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, grupo Rumo, José Miguel Wisnick, Jorge Mautiner. Não dá para ouvir uma única vez absorver sua musicalidade, tenho que ouvir, ouvir, ouvir. Depois ler as letras, prestar atenção nas melodias. Infelizmente nesse caso não posso assistir (pelo menos por enquanto) um show dele, pois moro no Japão, mas vendo os vídeos postados no YouTube, os shows dele são um espetáculo sensorial a parte;  há uma preocupação com o palco, com o estar no palco, como se estivéssemos num peça teatral/musical (não o musical hollywoodiano), pois atrás dele há uma espécie de telona com misturas e luzes psicodélicas, uma viagem no tempo, mas nem por isso com cara de anos 70, pois não existe mais anos atual que misturar todos os signos de décadas passadas. Assim como Chico Buarque e Marisa Monte, ele divulga suas músicas da estréia do seu CD, o Religar  através da internet, com um site próprio. No site, além de ouvirmos a música, também podemos ver vídeos de algumas músicas do CD.
      Nada mais apropriado o título Religar, onde ele expõe toda sua busca pelo auto-conhecimento, onde externiza seu lado introspectivo, suas inquietações e questionamento de tudo o que está sua volta, inclusive sua existência.
     Desde pequeno vivendo no meio musical suas primeiras influências foram Jackson do Pandeiro, Beatles, Michael Jackson , além de ouvir muita música flamenca. Pela heterogeneidade musical é fácil entender  porque sua música apesar de parecer experimental, vemos que é puro  pop. Não o pop fácil que aparece   nas grandes paradas de FM ou em programas de auditório, mas um pop refinado dos grandes músicos.Religar  é um trabalho totalmente autoral de múltiplo artista. Não é por acaso que é filho de um grande artista, mas também não é por acaso que sua música tem várias faces. Mas existe o acaso? Segundo Leo, ¨ o acaso faz a lei¨, e não por acaso, é Acaso é uma das minhas músicas preferidas.
  Tive  o prazer e a honra de entrevistar via e-mail o Leo Cavalcanti. Abaixo, a entrevista:


Você já nasceu num ambiente familiar regado de cultura e música.Essa vertente musical/cultural sempre esteve presente no seu inconsciente, digo na sua infância pensava em ser algo que não tivesse nada relacionado com a música?
Quando era criança, lá pelos 6 até uns 10 anos, tinha mil sonhos de profissões. Sempre me interessei pelas civilizações antigas, adorava desenhar mapas, inventar continentes e países, projetar castelos, muralhas e cidades, imaginar civilizações, impérios e reinos que não existiram. Lia livros adultos de história nessa época. Também gostava muito de desenhar e pintar. Então quis ser historiador, arqueólogo, geógrafo, arquiteto, pintor. Comecei a ler e a escrever muito cedo, com 4 anos. Fui uma criança mais "intelectual" do que "física". Sempre pertencí ao mundo dos sonhos e devaneios. 
Apesar disso, sempre tive no fundo uma grande vontade de cantar, e um sonho não admitido de ser um pop star, um Michael Jackson! Mas a vontade séria e admitida de fazer musica mesmo só veio lá com uns 10 anos, quando comecei a tocar violão e percebi que tinha facilidade com a linguagem musical, que meu ouvido era naturalmente voltado pra isso. Assumi pra valer minha vontade de trabalhar com música ao descobrir por mim mesmo a obra dos Beatles - lá na época do "Anthology". Sempre ouvi Beatles em casa, mas foi nesse momento que deu um "click" e eu senti: "Uau. Quanto brilho a canção tem. É isso o que quero fazer da minha vida".


Você tem uma irmã não? Profissionalmente ela também segue na carreira artística? 
Sim. A Nina começou sua vida profissional como produtora de música e cinema, mas já faz um tempo ela está seguindo um outro caminho, maravilhoso por sinal. Ela é videomaker e está fazendo videos incríveis.



Vou confessar algo e é até com uma certa vergonha e talvez até seja bom rs. Eu, quando te descobri, foi ouvindo e depois vendo o Leo Cavalcanti. Só depois de um tempo que descobri, tive a grata surpresa que você é filho do Péricles Cavalcanti que também gosto muito. Apesar disso
 (ou sei lá, devido a isso), a sua musicalidade é diferente   do Péricles. E você já mesmo disse que descobriu a música dentro de si a partir da sua descoberta dos Beatles. Quando foi e como foi esse momento ?
Não precisa ficar com vergonha! Acho até bom que as pessoas me conheçam antes de saber que sou filho do Péricles. Assim, podem me vêem de forma mais despreendida. 
Concordo com você. Minha musicalidade é bem diferente da do meu pai, e eu e ele concordamos com isso. Não sei explicar exatamente porquê. Acho que quando compomos, somos inspirados por temas e buscamos caminhos musicais diferentes. Poderia dizer que meu pai é essencialmente um compositor de canções, enquanto eu aponto mais para a performance, o canto, a execução. Mas isso não é de todo verdade. Ambos nos aventuramos em compor, fazer os arranjos, tocar instrumentos e cantar. Talvez algum dia eu saiba explicar.
Pois então, cresci num berço musical onde ouvi de tudo. De João Gilberto a Michael Jackson, de Ella Fitzgerald a Paco de Lucia. Mas de fato, descobrir a música por mim mesmo, como uma possibilidade de expressão para mim, foi quando comecei a tocar violão, com 10 anos e descobri os Beatles. Começei a estudar as canções e prestar atenção nas letras, nas construções harmônicas, nas emotividades implícitas. Comecei a me interessar pela canção mais profundamente, na sua estrutura, e no processo todo de criação musical.


Com treze anos começou acompanhar profissionalmente seu paijá tocava pandeiro e compunha. Quer dizer, sua adolescência foi todo um processo interno de descoberta e ao mesmo tempo externava essas descobertas. Como foi o processo dessas primeiras composições? E de quem foi a iniciativa, foi sua de querer acompanhar profissionalmente  o Péricles?

Meu pai me deu um pandeiro de presente, percebendo minha vontade de tocar percussão. E aí comecei a aprender sozinho a tocar pandeiro, ouvindo o Suzano. Depois, parti para outros instrumentos. Então meu pai me pôs na banda dele pra tocar violão e percussão. Foi aí que comecei no mundo profissional da música. Comecei a compor com 14, e o estopim inicial foi uma paixão platônica que eu tinha - uma colega de classe que era muito minha amiga, e eu era completamente apaixonado por ela, mas não tinha coragem de dizer por que tinha medo de sua rejeição, que era quase certa pra mim. A partir desse sofrimento adolescente, comecei a querer compor, a transformar aquilo numa beleza, numa jóia minha.




Já citou como influências, Beatles, Jackson do Pandeiro,  Michael Jackson
 e Luiz Gonzaga.  Mas quando te ouvi e te vi pela primeira vezme lembrei do Vitor Ramil pelas suas composições que ao mesmo tempo tem um lado subjetivo, mas também tem um lado cênico de contar histórias. Tem haver?
Não conheço muito o trabalho do Vitor Ramil, por isso não é uma influência minha. Por isso não posso dizer se tem haver ou não! rs 


Religar é um trabalho totalmente autoral , você participa de quase tudo, compõe, canta, o arranjo são seus e também assistindo seus shows, vemos o lado produtor. É um parto o CD Religar? Porque dá pra sentir que se doou muito e religar´remete a renascer, nascer.
Religar foi de fato um parto pra mim. Um trabalho que eu vinha desenvolvendo há alguns anos, tanto em termos da concepção musical quanto no processo de composição das canções. As canções partiram de minhas crises existenciais e minha vontade de clareá-las, resolvê-las. É um grito de superação, de esperança, e ao mesmo tempo de inconformidade com a loucura da existência. Ao mesmo tempo que volto minhas composições para o universal, quero dizer, não me interessa compor sobre a minha vida pessoal em específico, não tem como elas não terem um caráter íntimo. Eu estou alí, nu, mas transformo minhas experiências para o universal. Para que possa servir a todos, e não só a mim. 
A gravação de "Religar" foi muito intensa, com muitas dores e alegrias, dificuldades e realizações. Um processo de aprendizagem enorme, no qual as músicas do disco acabaram por ser minhas verdadeiras professoras. No final, lançá-lo foi um grande alívio, uma sensação de ciclo completado, de descarga. 
"Religar" tem sempre o sentido de "reunir", "reconectar", e esse é o tema central do disco. Cada música expressa um "religar" diferente. Tem o sentido original da palavra "Religião". Mas não se limita à prática doutrinária. A palavra pode sugerir muitos sentidos, e isso é uma qualidade maravilhosa desse título. 


Você é de São Paulo e sua música é urbana, apesar de ter influências de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Além disso tem o Péricles, que é de uma geração que tem também Tetê Espìndola, Arrigo Barnabé, Iptamar Assunpção, Luiz Tati, José Luiz Wisnik, toda uma geração que foi chamada de vanguarda paulista, talentos musicais que ficaram restritos a um seleto público. Ao mesmo tempo nessa época no Rio, a mídia e o grande público descobriam bandas como a Blitz. Hoje temos você, Anelis AssumpçãoPor que São Paulo tem esse lado de imensos talentos musicais mas que o grande público não conhece?
Meu pai, apesar de ser de São Paulo, sempre foi mais conectado com o povo do Rio. Caetano, Gal, Gil, a turma toda da tropicália. Eles sempre foram bem próximos. Acho que São Paulo é uma cidade tão grande e múltipla, que produz várias "micro-cenas". É muita gente e muita produção musical. Por outro lado, também gera talentos que são super conhecidos nacionalmente, como Guilherme Arantes, Elis Regina, Rita Lee. Portanto, acho que cada caso é um caso, quero dizer, cada artista tem seu próprio espectro de projeção, local ou nacional, e isso independe do local aonde tenha nascido.




Ao mesmo tempo que vejo todo um lado heterodoxo, com influências da música flamenca, tem também um lado introspectivo, e nesse trabalho você todos os recursos que vão além da música, no palco tem um lado cênico (seja no seu cantar/atuar e aí lembro do Ney Matogrosso que utiliza isso no palco) , mas sem querer ser algo não só intelectual, tendo o subjetivo. Apesar dessa análise pseudo-intelectual que fiz, vejo uma musicalidade pop também. Pra você a canção tem esse poder, digo por mais heterodoxa eou pop que seja  a música tem esse poder eternizador?
Eu acho que a música tem o poder de "religar", justamente. Despertar o belo e o sublime dentro de nós. Essa é a função eterna da música. Quanto mais universal ela for, maior será esse poder, maior será o seu alcance. Essa é uma vantagem da música pop: ela comunica a um grande número de pessoas, porque permite em sí a fusão de culturas e elementos e se utiliza de símbolos universais. Por isso gosto de situar minha música no terreno do pop. Gosto dessa universaliade e ambiciono isso para meu trabalho. Não tenho interesse em comunicar a um gueto somente, mas sim ao homem, para além dos guetos e culturas. Gosto de falar de assuntos que tratem da natureza humana. E aí mora o desejo da universalidade. A música tem esse potencial, é justamente a sua natureza. E quero cada vez mais me fazer de instrumento para essa missão.

Daniel Miyagi

2 comentários:

apanhadogeral disse...

Não o conhecia. Parabéns pela entrevista. Deu pra conhecer bem as influências dele, e vendo o video, entendê-las.

Sobre a operação do menino... Na minha opinião, distante e sem teoria nenhuma, acho que podiam ter trabalhado o psicológico, até por tudo o que passou, não para fazê-lo desistir, mas para que ele esperasse a idade ideal. Acho que tem partes do organismo que nao estão completamente formadas, ainda passará por crescimento, o que talvez faça com que ele passa por mais cirurgias. É uma opinião distante mesmo, mais no achismo. Eu apoio as pessoas que querem operar, é um peso que tiram das costas, já que estavam vivendo em um corpo que não condiz com o que são interiormente. Meu comentário foi mais nesse sentido biológico. Acho que não tinha me expressado bem.

Sobre a onda moralista, você quer uma opinião, é isso?

Obrigado pelos comentários lá no blog.

Abraço.

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Sempre leio os comentários publicados no blog! Gosto de quatro autores: Gloria Perez, Maria Adelaide Amaral, Walcyr Carrasco e Manoel Carlos. Aguardo o artigo sobre a onda conservadora. Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net