A
saída de mais de vinte milhões de brasileiros da linha de pobreza para a
classe E, D e C, a chamada nova classe média e o avanço da internet
está trazendo desafios para os programadores de aberta.
Caso 1: : no decorrer da novela Insensato Coração, os autores Gilberto
Braga e Ricardo Linhares foram chamados pela direção da Globo para uma
conversa com o diretor-geral de entretenimento Manoel Martins.O diretor
teria determinado que a história que envolve o casal gay
Eduardo e Hugo fosse esfriada. Muitas cenas já gravadas serão cortadas
da história. Além da trama que envolve o casal, as cenas que denunciam a
homofobia no Brasil, como a dos ataques homofóbicos, também serão
eliminadas.As únicas cenas liberadas foram do personagem Roni, papel de
Leonardo
Miggiorin, já que fazem parte do núcleo de humor da novela. A Globo
pediu aos autores que não polemizem o assunto, para que entidades não
considerem os cortes como preconceito. Em resposta, a Globo disse que a
televisão é um veículo de massa que
precisa contemplar todos os seus públicos e faz parte do papel da
direção zelar para que isso aconteça. Na mesma época, o SBT decidiu não exibir um beijo entre duas lésbicas na novela Amor & Revolução.
Caso 2: recentemente, o
humorista Rafinha Bastos soltou a frase ¨Eu comeria ela e o bebê¨no
programa CQC, da Rede Bandeirantes, sobre a cantora Wanessa Camargo, que
está grávida. Frase que teve grande repercussão, a artista se sentiu
ofendida, acionou a emissora, entrou em processo contra Rafinha e o
humorista foi suspenso por tempo indeterminado. Chegou a pedir demissão,
mas a questão ainda está em aberto.
Esses dois fatos não tem nada haver um com o outro, mas tem vários pontos em comum.
A mídia oficial, seja na tv aberta, seja na imprensa com os quatro
grandes (O Globo, Abril, Folha, Estadão), questionam o governo federal
na lei de regulamentação da mídia, pois isso implica no cerceamento da
liberdade de imprensa, numa volta a censura. Os veículos de tv
frequentemente falam contra a chamada Classificação indicativa do
Ministério da Justiça, sob o mesmo argumento da censura.
A questão é mais profunda e mais complexa do que se apresenta.
Hoje, vemos um círculo vicioso em o meio termo, a busca pela
convergência de opiniões está cada vez mais distante, crescendo um
radicalismo perigoso.
Não indo muito longe, indo para a seara política, com a campanha da
última eleição presidencial, com os candidatos José Serra do PSDB, Dilma
Rousseff do PT.. No início, Serra era favorito, se mostrava um
conciliador, evitando criticar o presidente Lula, e Dilma era uma
desacreditada, com menos de 5% de votos, segundo pesquisas da época. Na
reta final do primeiro turno tudo mudou Dilma passou a ser favorita,
com chances reais de vencer, e Serra mudou de postura, passou a usar
táticas que mancharam totalmente sua biografia. Com o apoio de parte da
mídia, espalhou-se boatos que a candidata Dilma iria legalizar o aborto,
o casamento gay e a descriminalização das drogas. O movimento
evangélico entrou em ação, o jornalismo, mesmo não admitindo, tomou
partido em favor do candidato Serra.
O jornalismo na tv aberta hoje vive um paradoxo: os chamados jornal
mundo cão de anos atrás com programas extremamente populares e
policialescos, como o Povo na TV, Programa do Ratinho não dão mais o
ibope de antigamente. O próprio apresentador Ratinho sabe disso e hoje
seu programa está mais pro humor, mas continua no popularesco. Talvez o
único programa desse tipo remanescente seja o Brasil Urgente da
Bandeirantes. Mas isso não quer dizer que o policialesco e o mundo cão
esteja em evidência, isso é mais pelo carisma do apresentador Datena.
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| Cena do filme Os3 |
Isso também é resultado da cultura do reality show, onde todos veem o
comportamento humano numa tela, tanto faz se é numa tv, ou se é na
internet. Graças ao sucesso de Big Brother Brasil e seu irmão na Record,
A Fazenda, hoje é ¨normal¨ sermos astros de nós mesmos, e nos
exibirmos diante de uma cãmera nossa privacidade com todo tipo de
constrangimento que isso implica. Na Mostra de SP há um filme
interessante que aborda exatamente isso, o Os 3. * O filme se utiliza da metalinguagem , utilizando redes sociais como twitter, e o YouTube.
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| O humorista Rafinha Bastos |
Então, o que ocorre na tv, é muito mais que a chamada ditadura do
politicamente correto. Esse termo hoje foi desfigurado. Desaprovo a
piada do Rafinha Bastos, eu, de início concordei com o afastamento dele
no programa. Mas depois refleti e, sejamos sinceros: ele foi punido da
emissora, mais pelo estrago comercial, já que o marido Marcus Buaiz
ameaçou retirar anunciantes do programa CQC. Por que a direção da
Bandeirantes não tomou providências quando o mesmo Rafinha fez a piada
sobre estupro? Posso dizer que naquele momento não houve um nome
conhecido em evidência. Que a piada do Rafinha é de mau gosto e
desrespeitoso isso ninguém tem dúvida, mas me digam: nos outros
programas humorísticos da tv não existe uma apelação também? Em A Praça é
Nossa, Zorra Total e Pânico, a mulher não é tratada de forma vulgar e
machista, muitas vezes exibindo seu corpo quase nu? Ou mesmo os gays,
Costinha, Ary Toledo, tem muito em seu repertório piadas gays machistas
pra muitos vulgares. O humor mexe com o preconceito trata na ferida e
sempre vai atingir determinados grupos.
Semana passada terminou de forma gloriosa o remake de O Astro. A novela
foi um sucesso incontestável. Os deuses conspiraram a favor e deu tudo
certo, o texto, a produção, a interpretação (todos foram bem mas como
não mencionar Regina Duarte?) , a crítica elogiou, houve o boca a boca a
repercussão nas redes sociais. Mas O Astro , além de remake, é um
modelo de novela já conhecido, o chamado dramalhão folhetinesco, com
todos os seus chavões e clichês. Quando um autor tenta fugir da regra,
tentando renovar o produto, a audiência não corresponde, o público não
entende. Esse público talvez seja essa nova classe média. Mais
recentemente tivemos a novela Tempos Modernos, que o autor Bosco Brasil
(consagrado dramaturgo teatral) tentava uma nova linguagem, um pouco
atrás, Mario Prata tentava o mesmo com Bang-Bang.. Em vão, fracasso de
audiência.
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| Rodrigo Andrade e Marco Damigo, intérpretes de Eduardo e Hugo em "Insensato Coração" |
Esse momento que a mídia vive, e seu principal veículo, a tv aberta, me
preocupa. Esse misto de conservadorismo, misturando interesses
econômicos, mais o acirramento de grupos radicais através de redes
sociais é algo que a sociedade deve refletir urgentemente.
Daniel Miyagi
*http://os3ofilme.com.br/home/
*http://os3ofilme.com.br/home/



3 comentários:
Aplaudo de pé o texto. Ótimos pontos de vista, boa argumentação sobre os interesses das emissoras, liberdade de expressão e conservadorismo pelo qual a televisão passa no atual momento. Aguardo ansioso o próximo!
Lucas - www.cascudeando.zip.net
Olá, tudo bem? Na novela Insensato Coração, os autores erraram na abordagem do casal Eduardo e Hugo.. Além disso, o ator que fazia o Eduardo também não foi bem e não tinha "estofo" para interpretar a personagem...O público não se envolveu com a história...Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net
Muito bom o seu texto e parabéns pela iniciativa de estar discutindo o assunto aqui.
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