Terça-feira, Novembro 15, 2011

O momento conservadorismo na TV brasileira Parte3, final, acho.



O jornalista André Santana além de ser um bom conhecedor de séries e televisão brasileira em geral, tem uma qualidade que me cativa: quando leio seus posts em seu blog, ele mostra além do conhecimento, prazer no que faz, e isso é um diferencial que faz parte de seu jeito de ser.
Quando pedi para comentar sobre o meu post sobre o conservadorismo na tv brasileira, ele não fez um simples comentário, mas toda uma reflexão, mostrou sua indignação no que acha de errado, opinou argumentou diante dos fatos.
Não por ser um comentário cumprido que deixei por último, mas para vocês verem esse lado , ele, conhecido na blogosfera como André-San


O atual policiamento, a atual e atuante “patrulha do politicamente correto” me preocupa muito. Dá a impressão de que, daqui uns dias, não se poderá falar mais nada, temendo represálias de grupos ligados a este ou aquele setor. É um tipo de censura meio “torta”, sem motivações políticas, como no passado. Travestida de “defesa da moral e dos bons costumes”, essa censura parece querer varrer toda e qualquer discussão pra debaixo do tapete, na tentativa de manter um mundo ingênuo e totalmente irreal (pra não dizer surreal). No fim de tudo, é a vitória da hipocrisia.
O caso envolvendo Rafinha Bastos e Wanessa Camargo já teria arrefecido se não fosse tanta gente que nada tem a ver com isso se meter na história. Rafinha é humorista, o considero bom no que faz, mas muitas vezes perde a mão e erra. A piada sobre Wanessa é, acima de tudo, sem graça. Wanessa, recentemente, se pronunciou sobre o caso, e achei a defesa dela muito coerente. Ela se sentiu ferida. E tem todo o direito de sentir-se assim. E se acha que um processo judicial auxiliará na cicatrização desta ferida, que assim o faça. Mas isso não justifica o afastamento de Rafinha Bastos que, a esta altura do campeonato, já é definitiva. Não consigo enxergar Rafinha voltando à cena no CQC. Talvez volte no ano que vem, quando a poeira tiver baixado. Toda a repercussão disso foi de um exagero desproposi tado.
A novela Insensato Coração sofreu patrulhamento da própria emissora com relação à abordagem do amor homossexual envolvendo Eduardo e Hugo. Talvez seja ingenuidade de minha parte, mas fiquei muito surpreso com a atitude da emissora. Pensei que já tínhamos nos livrado de certos preconceitos. Quando comecei a ver novelas, qualquer caso homossexual era rejeitado pelo público. Torre de Babel, minha novela favorita, teve um casal lésbico literalmente “explodido” da trama. A ideia do autor Silvio de Abreu era manter Leila (Silvia Pfeifer) viva, e apenas Rafaela (Christiane Torloni, numa interpretação memorável) morreria na explosão do shopping, que era o mote da novela. Mas Leila acabou morrendo porque o público rejeitou o casal. A cena da morte das duas é emblemática. Lembro-me de Rafaela la mentar “tudo por causa desse maldito preconceito!” segundos antes da primeira bomba que explodia o Tropical Tower ser acionada.
Depois disso, tivemos casais gays mais bem aceitos, como em Mulheres Apaixonadas, Senhora do Destino... Uma das melhores abordagens da temática aconteceu em Ti Ti Ti, onde o público torceu para que Julinho (André Arteche) encontrasse um namorado! Mérito da autora Maria Adelaide Amaral, que soube conduzir o personagem com muita sensibilidade.
Aí vem Insensato Coração e dá passos largos para trás. Eduardo e Hugo não puderam ter cena de café da manhã na cama, entre outras situações consideradas excessivas. Eu, particularmente, não senti qualquer rejeição de espectadores com relação ao casal. Deu a impressão de que a trama mexeu com a direção da Globo, e não com a audiência. Foi estranho. Acho que o preconceito ainda existe por ignorância, falta de informação. Me espanto ao perceber que muita gente ainda acha que homossexualidade é uma questão de escolha. Ou que seja uma doença. Uma novela do horário nobre pode contribuir para esclarecer essas questões ainda obscuras para uma parcela da audiência. De uma forma que se crie um debate, que se encare a questão com naturalidade. Mas um debate sério, e não essa bobajada d a discussão do “beijo gay”. Mas não deixa de ser curioso que um país como o Brasil, com fama de “liberal”, ainda se prender a preconceitos tão arcaicos. Os EUA que, em tese, são mais conservadores, produzem atrações de horário nobre na TV aberta onde o assunto não é tabu. Veja Brothers and Sisters, onde havia um casal gay que era encarado como um casal qualquer, com direito a cenas de carinho e tudo. Mas Insensato Coração teve o mérito de levantar discussão acerca dos ataques homofóbicos, e isso foi bom. Quando se vê pai e filho apanhando na rua por serem confundidos com um casal gay, percebemos que essa violência não é um problema apenas dos homossexuais, mas de toda a sociedade. Infelizmente, qualquer um pode apanhar gratuitamente por aí...
E as novelas, de modo geral, parecem mais conservadoras mesmo. Não é raro ver gente reclamando que “novela é tudo igual”, mas, quando vem alguém e faz algo diferente, todo mundo reclama. Engraçado é que a reclamação é quase sempre a mesma: “essa novela não tem pé nem cabeça!”. As pessoas estão tão acostumadas com o arroz com feijão do folhetim, que quando ele aparece fora de ordem, ninguém entende. Tempos Modernos era 100% satírica, mas ninguém entendeu isso. Havia o projeto da Marcia Prates de uma novela que se passava num transatlântico que causou estranheza... sendo que, no passado, O Rebu era uma novela que se passava toda numa festa. Hoje temos Fina Estampa, que recuperou a audiência da faixa nobre: uma novela boa, sim, mas simplista de tudo, uma obra à prova de erros. E u ma obra bem abaixo da capacidade do autor Aguinaldo Silva. É boa de acompanhar, mas será daquelas tramas que será esquecida quando terminar.
Obras mais provocativas, como as antecessoras Passione e Insensato Coração, parecem não ter vez. O público não quer ser provocado: ele quer se sentir em casa. Será que projetos como a já citada O Rebu, ou Que Rei Sou Eu?, seriam bem aceitos nos dias de hoje? Tenho a impressão de que seriam barradas ainda na análise da direção da Globo...
Dito tudo isso (nossa, falei pra caramba!), é fácil notar que houve um retrocesso no campo do humor, onde o politicamente correto parece querer imperar (imagina Os Trapalhões nos dias de hoje... coitados!), nas discussões ditas polêmicas, ou na estrutura das novelas. Retroceder é pior do que estacionar. Veja o caso da abertura da reprise de Mulheres de Areia! A justificativa da Globo para “esconder” a nudez de Monica Carvalho diz tudo: “a abertura original não era compatível com os atuais padrões morais da sociedade”. Como assim? Nos anos 1990 podia haver nudez na TV e hoje, em 2011, não pode mais? Por acaso existe alguma evidência de que a abertura de Mulheres de Areia tenha deixado alguma pobre criancinha traumatizada?
Tenho medo que esse retrocesso nos leve a uma sociedade ainda mais hipócrita do que a que vivemos hoje. Falta senso crítico, falta educação e falta informação. O problema é bem maior do que apenas discutir televisão. Afinal de contas, a televisão não influi negativamente a sociedade; ela apenas copia reflexos da própria sociedade. Torço pra que seja apenas uma fase, mas tenho lá minhas dúvidas.

*André Santana, jornalista, crítico de televisão, especialista em séries de tv, possui o blog Tele-Visão  no UOL Televisão Blogs e Blogs Legais Convidado do UOL

1 comentários:

André San disse...

Hoje finalmente pude ler as opiniões dos colegas que participaram do debate promovido por você, Daniel! Antes de mais nada, parabéns pela iniciativa. O resultado foi muito bom, plural, sob diversos pontos de vista. E agradeço pela carinhosa apresentação que fez de mim neste texto! Sabe que a recíproca é verdadeira! Conte sempre comigo e forte abraço!
André San - www.tele-visao.zip.net