Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

Diretor Vicente Amorim fala sobre o filme Corações Sujos

 

Cena do filme "Corações Sujos" dirigido por Vicente Amorim
       Vicente Amorim começou a carreira como assistente de direção de nomes consagrados como Hector Babenco e Paul Mazurky. Filho do Ministro da Defesa  Celso Amorim, nasceu em Viena, Áustria, estudando economia na UFRJ e cinema na UFF.
    Diz a lenda, que quando Vicente quis abandonar a faculdade de Economia para fazer cinema, a reação de seu pai não foi animador: "Quer fazer cinema, se vira" e parou de mandar dinheiro. Mas isso foi só o início, depois passou a ser um incentivador de sua carreira. Diretor do elogiado "O Caminho das Nuvens", com Wagner Moura e Claudia Abreu mergulhou num pedaço da história do Brasil e dos descendentes de japoneses que até hoje é um tabu. Numa adaptação livre do livro "Corações Sujos" de Fernando Morais, volta até o Brasil pós-Segunda Guerra para contar como a derrota do Japão repercutiu na colônia de imigrantes brasileira, a maior do mundo, reprimida pelo governo. Lágrimas, orgulho e terrorismo imperam na história, interpretada em japonês por um elenco majoritamente de lá. Foi esse filme que abriu o  Paulínia Festival de Cinema 2011.
     Ano passado o diretor teve a gentiliza de  abrir uma brecha na sua agenda e me deu uma entrevista via e-mail. Eu ia publicar no final do ano, mas como já era época de festas (e também pelos problemas pessoais que tive e alguns sabem), resolvi publicar agora. Peço desculpas pela demora

No final, tem uma  entrevista de podcast que o ator Du Moscovis, deu pro site Mixer Produtora



Foto: Divulgação




Fala um pouco da sua escolha em fazer cinema. Seu pai, o atual Ministro da Defesa , Celso Amorim era contra você fazer cinema não? O que ele tem falado atualmente sobre seus trabalhos?


Meu pai trabalhou como assistente de direção nos primórdios do cinema novo e foi presidente da Embrafilme nos anos 80.  Cinema sempre foi o grande assunto na nossa casa.  Acho que, mesmo que tenha havido uma resistência inicial à minha escolha profissional, ele, na verdade me vê (e a meus irmãos mais novos, também cineastas) realizando um sonho dele.
Meu pai lê sempre os roteiros dos filmes que estou preparando e vê os primeiros cortes dos meus filmes.  Acabo usando-o quase que como consultor.  

O que  te motivou a fazer um filme baseado no livro do Fernando Morais?

Eu procurava um filme sobre identidade, que é um tema muito próximo a mim.  Não sabia que filme seria este até que li o livro do Fernando Morais e me dei conta que poderia fazer um filme sobre identidade e também sobre racismo, fundamentalismo e manipulação da verdade.  Um filme que, embora de época, fosse sobre temas urgentemente contemporâneos.  Além disso ajudou o fato de eu ser um apaixonado pela cultura japonesa, pelo cinema japonês e sempre muito curioso sobre a colônia no Brasil.


Não assisti a Um Homem Bom, mas vi  O Caminho das Nuvens.  Mas são três filmes bem diferentes um do outro, mas apesar disso , percebi em comum nos filmes, é a transformação que o ser humano  sofre diante dos acontecimentos do destino. Foi assim com o retirante vivido pelo Wagner Moura em Caminho das Nuvens, foi assim com o professor universitário de Um Homem Bom e parece ser assim com o fotógrafo personagem vivido pelo ator Tsuyoshi Iraha

Os três filmes são, de certa forma, existencialistas.  Mostram como as escolhas que fazemos são formadoras não só do nosso destino, mas também daqueles em torno de nós.  Há semelhanças e pontos de contato ainda maiores entre "Um Homem Bom" e "Corações Sujos", já que os dois se passam em torno (um logo antes e outro logo depois) da Segunda Grande Guerra e ambos têm o ponto de vista dos derrotados. 

O Japão perdeu a Guerra, grande parte dos japoneses no Brasil não aceitavam a rendição, ao mesmo tempo, era proibido falar em japonês. Tudo isso ocorria sem que o Japão soubesse desses acontecimentos. Como vê esse fato histórico do Brasil?

Sem a terrível opressão do Estado Novo à colônia japonesa, provavelmente os eventos descritos no "Corações Sujos" não teriam acontecido.  O preconceito em relação aos imigrantes e o consequente isolamento deles foram em parte responsáveis pelos eventos.  Se houvesse liberdade de informação para este grupo teriam sido muito menos os "vitoristas" e a guerra dentro da colônia não teria tomado a proporção que tomou. 

O que difere o livro do Fernando Morais com o filme, qual a sua proximidade ou distanciamento?

O livro do Fernando Morais é uma grande (e brilhante) reportagem, mas, como toda reportagem, não tem personagens principais nem enredo.  Nosso maior desafio, na época da adaptação do roteiro, foi buscar um recorte entre as muitas possibilidades que o livro oferecia.  Algo que fosse fiel a história mas que se prestasse a um filme de ficção emocionante e movimentado.  Para isto tivemos, claro, que tomar algumas liberdades em relação ao que está no livro e tivemos, também, que fazer pesquisa, muita pesquisa, paralela.
Nesta pesquisa chegamos à conclusão que não deveríamos centrar o roteiro na Shindo Renmei, já que não há consenso na comunidade se esta foi, de fato, responsável pelos ataques, pela guerra na colônia.  Como a Shindo é central no livro do Fernando, isto, em si, já é uma grande diferença.


Como foi esse processo no mergulho da cultura japonesa?

Revi todos os clássicos do cinema japonês que já tinha visto, vi os que faltavam, me inteirei sobre o cinema japonês contemporâneo (que conhecia, mas com deficiências) e parti para, além de pesquisar muito aqui no Brasil sobre a comunidade, com a ajuda do Museu da Imigração e da sua então diretora, Celia Oi, ler tudo que eu achava que seria relevante, desde o Hagakure até Murakami e Mishima.  Foi realmente um mergulho de cabeça.

E a escolha de um elenco tão heterogêneo, atores japoneses, atores brasileiros e atores não profissionais? Fala um pouco de todo esse trabalho do elenco, desde a escalação do Du Moscovis, preparar atores não profissionais e enfim na busca de profissionais japoneses, precisou ir até o Japão, já tinha em mente algum ator japonês?

Todo filme precisa de um bom elenco.  Neste, falado grande parte em japonês, havia um desafio a mais:  precisava de um elenco excepcional para os papeis principais e que, de preferência, fosse também conhecido no Japão, já que sabíamos que o filme teria possibilidades comerciais aí.  O processo durou mais de um ano, mas conseguimos fechar, no Japão, um elenco estelar, com nomes que haviam participado de filmes como Cartas de Iwo-Jima, Kill Bill, A Partida, entre outros, e no Brasil, além do Du Moscovis para o principal papel "brasileiro" um batalhão de excelentes atores e não-atores nisseis, entre os quais destaco os "samurais" (cúmplices, no filme, do personagem vivido por Eiji Okuda) e Ken Kaneco.

Qual foi a reação do elenco japonês ao ler o roteiro, já que não sabiam essa história que também fazem parte da história dos acentrais deles? Foi muito difícil dirigí-los? E em especial o que achou da atuação do Tsuyoshi Iraha (todo elenco japonês é super conhecido aqui, mas o Tsuyoshi Iraha além de atuar bastante no cinema também trabalha bastante na tv japonesa)?

A reação ao roteiro foi a melhor possível.  A força do roteiro e a curiosidade sobre o episódio foram as forças motrizes por trás do fato de termos conseguido fechar um elenco tão especial para o Corações Sujos.
Não foi difícil dirigir o elenco japonês.  Embora eles não falassem inglês (nem português, e eu não falo japonês), como ensaiamos muito, na hora de rodar nós já tínhamos discutido cada intenção, cada fala, cada movimento (mesmo, sempre, dando espaço para alguma improvisação).  
O Ihara-san foi ótimo.  Dedicadíssimo, afiado como uma katana.  Ele é um ator especial.

O filme já foi visto aonde, em que festivais? Qual tem sido a festividade?

O filme abriu, aqui no Brasil, o festival de Paulínia e foi hors-concours no Festival do Rio.  Foi muito bem recebido nos dois festivais.  Fora do Brasil, ele esteve no Festival de Montreal, onde foi um dos dez filmes mais votados pelo público e teve uma "standing ovation" e ótimas críticas.

Quando será o lançamento comercial no Brasil? E como espera que o público vai reagir, e em especial os descendentes de japoneses no Brasil?

Estamos prevendo o lançamento para o Brasil para o primeiro semestre.  Devemos fechar a data nas próximas semanas.  Acho que o filme tem força suficiente para transcender o fato de ser falado em japonês e emocionar a todos, mas, certamente, os nisseis vão ser tocados de forma particular pela história.


Haverá lançamento comercial no Japão também? Acha que os japoneses reagirão bem, visto que é um povo que carrega bastante esse sentimento de nacionalismo ainda nos dias de hoje ?

 Estamos fechando a venda para o Japão.  O filme deve estrear no Japão no meio do próximo ano, mas isto é tudo que posso dizer a respeito por enquanto, por razões contratuais.  Todos os japoneses (do Japão) que viram o filme até agora pareceram se emocionar muito com o filme.  Estou confiante a respeito da sua recepção aí.

Os brasileiros são a 3a maior comunidade estrangeira no Japão, pretende fazer algum evento promovendo o filme pra eles?

Claro.  Estamos organizando sessões especiais com a ajuda de várias associações. 

Quando ocorreu o terremoto no Japão eu estava no serviço , e o que me chamou a atenção é que quem estava desesperado histérico gritando eram os estrangeiros. Mesmo sendo um terremoto atípico, o maior da história no Japão , os japoneses estavam calmos. esperando a tremedeira passar, tentando agir como se fosse algo normal, e não era, mesmo pros japoneses. Por ironia do destino, você esteve no Japão no dia do terremoto de 11 de março, como foi isso pra você?

Acho que respondo esta pergunta de forma completa no blog do filme em:   http://coracoes-sujos.mixer.com.br/vicente-amorim-e-o-terremoto-no-japao

Por fim, queria que deixasse alguma mensagem para os brasileiros residentes no Japão

Aprendi muito com os japoneses daqui e do japão.  Esta experiência me deixou mais próximo a uma cultura que sempre admirei e que agora conheço muito melhor.  Espero que, quando o filme estrear, todos gostem do filme.  Ele foi feito com muito cuidado e emoção.

  #Falanamixer Du Moscovis by Mixer Produtora

2 comentários:

apanhadogeral disse...

O livro é um dos meus preferidos. Se o diretou soube captar a sensibilidade dessa história e transmitir isso para a telona, será um fime inesquecível.

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Sinceramnete vi muito pouca divulgação do filme hein... E olha que leio de tudo... Espero que atinja o objetivo proposto. Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net