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Por Daniel Miyagi
Podemos afirmar que a Globo teve três períodos:
A primeira, com a dupla Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira, o Boni, período que foi desde da segunda metade da década de 60 até o final da década de 90, mais precisamente 1997, quando Boni deixou a vice-presidência de operações da Globo. Foi nesse período que a dupla Clark-Boni implantou a famosa grade de programação da Globo, sendo que a maior parte dessa grade persiste ainda hoje. Foi durante o auge da ditadura militar que Boni desenhou o novo perfil da Globo.
Como foi visto recentemente na bem sucedida minissérie (sim, ainda utilizo um termo antigo) ou macrosérie como preferem Dercy de Verdade, escrita por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Jorge Fernando. Boni acabou com os programas de linha populares assistencialistas, alguns até mundo cão. Durante o regime militar,impedida pela censura de apresentar seus programas de comédias, Dercy Gonçalves passou a apresentar um programa que chegava durar mais de duas horas de exibição, ao vivo, assistencialista, que ela atendia pedidos da população mais carente, com críticas ao governo militar. Mesmo dando um ibope de mais de 70% de audiência, Boni decidiu acabar com o programa. Na macrosérie, o personagem Boni alegou que os militares estavam pedindo a cabeça da Dercy. É verdade, mas não por inteira, Boni, decidiu acabar com esses programas popularescos assistencialistas e mundo cão, mesmo dando grande audiência. Jacinto Figueira Junior, o famoso Homem do Sapato Branco, que fazia um programa nessa linha também foi demitido. Querendo mudar a imagem da Globo, vindo egresso dos Estados Unidos, ele ficou impressionado com a televisão norte-americana, e quis moldar com base nesse tipo de televisão. Criou a famosa grade do horário nobre que até hoje vemos, que são as novelas das 18, 19 e 20 horas , intercalado de jornalismo (primeiro o jornal local , depois o mais importante, o Jornal Nacional) terminando com programas de entretenimento. Foi nesse período que a dramaturgia na tv alcançou a qualidade artística e reconhecimento popular, dando sua visão artística para a Globo
O segundo período foi mais curto, foi com a chegada de Marluce Dias da Silva ao comando da Globo. Marluce passou a ser a diretora-geral de 1997, tendo se afastar de suas funções em 2002 para tratamento de um câncer. Diferente de Boni, Marluce tinha uma visão mais administrativa. Já durante os anos 90, a emissora do doutor Roberto Marinho passava perder (senão perder a liderança no horário, a emissora incomodava) para algumas novelas da antiga Manchete como Pantanal e Dona Beija, o SBT por outro lado, teve novelas exibidas com sucesso (e algumas com qualidade impecável) como Carrossel, Chiquititas, Éramos Seis. O programa popularesco Ratnho Livre , primeiro na Record em 1997, no ano seguinte no SBT, também passou a incomodar a vénus platinada. Foi na gestão Marluce que a dramaturgia começou a sentir queda de qualidade. Malhação, que começou como inovação, passou e passa a ser exibida ininterruptamente, e as novelas, embora ainda que continuasse com sua liderança na audiência, vinha o ibope decrescer com textos de qualidade inferior. A faixa das 19 horas foi o que mais sentiu com novelas do tipo Corpo Dourado (de Antonio Calmon), Zazá (o grande Lauro Cesar Muniz) e Desejos de Mulher (Euclydes Marinho, autor do ótimo O Brado Retumbante). Na faixa das 20 horas, havia um desequilíbrio de textos, como Suave Veneno (Aguinaldo Silva) e Torre de Babel (Silvio de Abreu) , uma procura de tentar sofisticar temas como Shakespeare (Aguinaldo Silva queria retratar Rei Lear em Suave Veneno, mas teve que realinhar totalmente sua novela) ou tratar de temas muito fortes para uma classe média conservadora que ia nos programas policialescos como Ratinho ou novelas populares do SBT. Em Torre de Babel foi uma novela problemática para Silvio de Abreu, o personagem de Marcelo Antony, que era dependente químico e as personagens de Christiane Torloni e Pfeifer, que eram lésbicas, mais o personagem de Tony Ramos, um ex-presidiário, foram rejeitados pelo público.
O terceiro período da Globo , começou a partir de 2002 e vai até os dias de hoje, com Otávio Florisbal substituindo Marluce e tendo Manoel Martins como diretor geral de Entretenimentos. Se Boni passou sua visão artística e Marluce uma visão administrativa, Manoel Martins tem uma visão comercial, e seus programas de entretenimento se enquadram nessa questão. Lauro Cesar Muniz saiu da Globo por reclamar no comodismo a falta de ousadia que se tornou a emissora principalmente no período Marluce. Não é a toa, os seus últimos trabalhos lá (a novela Zaza em 1997 e a minissérie Aquarela do Brasil em 2000) não o satisfizeram artisticamente . Foi para a Record com a perspectiva de escrever novelas mais ousadas e, de fato, suas produções na emissora do bispo Edir Macedo ( Cidadão Brasileiro e Poder Paralelo) deram um frescor na qualidade dramatúrgica e provavelmente seria impensável fazer na Globo.
Manoel Martins quebrou o padrão rígido de programação no horário nobre, com os mesmos programas durante o ano inteiro. Passou a fazer programas e séries de curta temporada, com duração de dois a seis meses. Em parceria com produtoras independentes e cineastas consagrados como Fernando Meirelles e Hector Babenco, produziu séries como Carandiru, Cidade dos Homens, Ó Paíó e Som e Fúria. As minisséries, que tinham duração de 30 a 40 capítulos em média, passaram a ser de 4 capítulos (Maysa, Dalva e Herivelto, Dercy de Verdade) e em suas novelas passou investir também em novos autores,. surgiram nomes como João Emanuel Carneiro, Duca Rachid, Telma Guedes, Andréa Maltarolli e Elizabeth Jhin. E começou a veicular os reality shows, sendo o Big Brother Brasil o principal, e um dos maiores sucessos de audiência e faturamento.
Esse período coincide com a eleição do presidente Lula e o PT no governo na presidência do Brasil. Foi Lula , o responsável da inclusão de mais de trinta milhões de brasileiros da extrema pobreza para a classe média. Além disso, com o acirramento da concorrência da Record, o surgimento de novas mídias como a internet, canais a pago, o maior poder aquisitivo fizeram os brasileiros a ter mais opções de lazer como os dvds, cinema, a atual juventude não prende mais facilmente em frente a televisão e respondem rapidamente que as mídias tradicionais através das redes sociais.
Entramos na década de 2010, e a Globo entra em novos desafios e questões. Sua programação gradativamente vem sendo produzida de olho nessa nova classe C. Um exemplo bem feito e vitorioso é a série Tapas e Beijos. Ao mesmo tempo é fato que hoje o espectador , principalmente o mais jovem tem uma dinâmica mais rápida, assiste querendo interferir e opinar, sua opinião repercute através do Facebook e twitter. Daí realitys como BBB e A Fazenda fazerem tanto sucesso e os programas de fofoca estarem na programação da tarde de várias emissoras.
Aí que entra a questão, programas como Malhação e Big Brother Brasil já estão visivelmente desgastados. Malhação, com o argumento de ser um celeiro de novos talentos, continua no ar, a cada nova temporada perde audiência, e suas histórias em nada dizem. Já o BBB, apesar de ser ainda uma grande audiência e um bom faturamento, a partir do ano retrasado passou dos limites , querendo polemizar com assuntos verdadeiramente sérios como se fossem algo corriqueiro. Ano retrasado com a ascensão e vitória do Marcelo Dourado, uma pessoa homofóbica levada ao posto de pop star, e esse ano querendo usar um tema de extrema importância, como a questão do estupro, como uma consequência de um jogo, e sua imagem, ficando extremamente afetada. Esses são apenas de alguns exemplos de programas desgastados
O grande problema , é que a Globo, mesmo tendo consciência de que é preciso acabar com alguns programas, seja pelo desgaste, seja pela baixa qualidade, seja pela sua própria sobrevivência financeira e moral, não tem o que colocar, não tem coragem de acabar com esses tipos de programas.
Essa é uma questão que a Globo tem que pensar seriamente o mais rápido possível se ela não quer, além do aspecto financeiro, ver perder o que tem de maior, a sua credibilidade diante da classe conservadora do país.

2 comentários:
Lamento muito que a Globo esteja empenhada somente no fator comercial nos últimos anos. A qualidade artística e a ousadia que outrora davam créditos ao canal hoje fazem falta e os olhos dos diretores estão mais voltados apenas em produzir para exportar.
Lucas - www.cascudeando.zip.net
@cascudeando
Belo texto, muito bem desenvolvido!
Hoje em dia o $$$ fala mais alto na emissora! Uma pena!
Fábio
www.ocabidefala.com
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